SOCIEDADE / Desde o início do ano, o programa “Adota +”, do município de Cantanhede, já permitiu que mais de 70 animais encontrassem uma casa. O número quase iguala o total de adoções registadas em 2025, no entanto, também há cada vez mais cães e gatos a chegar ao canil.
Promovido pela Câmara Municipal de Cantanhede, o programa “Adota+” possibilitou que, desde janeiro, cerca de 75 animais encontrassem um lar. Este número revela uma tendência de crescimento, já que quase atinge o número total de adoções registadas no ano passado (78). Contudo, cada saída do Centro de Recolha Animal de Cantanhede (CRAC) é rapidamente preenchida por uma nova entrada. De momento, há cerca de 63 cães e 28 gatos que anseiam por uma família.
“Apesar de haver adoções, também há muitas admissões. Só este ano, – e até ao momento -, já recolhemos mais animais [das ruas] do que em todo o ano de 2025. Ou seja, houve mais adoções mas também há uma pressão para recolha muito maior”, adianta Ana Viana, Médica Veterinária Municipal, em declarações ao “O Despertar”.
Uma realidade que, na opinião da responsável, só poderá mudar se houver alterações legislativas. “Devia haver esterilização obrigatória dos animais que não pertencem a criadores autorizados”, afirma. Além disso, defende a “aposta na fiscalização e identificação intensiva dos animais, porque ainda nos aparecem muitos cães sem microchip e gatos, então, devem ser 80% ou mais nessa situação”, expõe.
Cantanhede é um dos muitos municípios que, ano após ano, se debate com o problema do número elevado de animais errantes. Foi com o intuito de encontrar respostas para esta questão que a autarquia criou um projeto de trabalho que tem como propósito promover a adoção responsável, sensibilizar a comunidade para a temática e desmistificar a imagem dos canis. É aqui que se insere o programa “Adota +”.
Promover adoções responsáveis
O “Adota +” é “mais uma medida que está dentro deste objetivo de aumentar a adoção e dimuir o abandono”, refere Ana Viana, sublinhando que o programa serve de incentivo à adoção, mas sem nunca esquecer a importância da detenção responsável. “Não se pretende fazer a adoção a qualquer custo. Isto é, pretendemos que as pessoas pensem bem e avaliem se têm condições”, admite.
Nesse sentido, sempre que alguém se desloca ao CRAC, todos os animais são-lhe apresentados. Assim que um deles é escolhido, é realizada uma avaliação informal. “Tentamos sempre, através da conversa, perceber as condições que as pessoas têm em casa, bem como transmitir a ideia de que um animal representa sempre uma despesa”, revela a médica veterinária. Desta forma, é feita uma triagem para garantir que o animal em questão vai ter todos os cuidados necessários na sua nova casa.
Posteriormente, o CRAC continua a acompanhar os patudos nas suas novas vidas. “Gostamos de ter a certeza de que estão bem e de que foi, de facto, uma adoção responsável. Também é bom vermos histórias com finais felizes”, confessa a responsável.
Caixotes do lixo são locais frequentes de abandono
O “… e viveram felizes para sempre” é, muitas vezes, uma forma de aquecer o coração de pessoas como Ana Viana que, diariamente, se deparam com histórias tristes e difíceis. “Somos chamados, por exemplo, por alguém que foi despejar o lixo e encontrou uma saca com gatos recém-nascidos”, recorda, alertando para uma realidade dura: “infelizmente, os caixotes do lixo e os pontos de reciclagem são, frequentemente, locais de abandono”.
Apesar de situações como estas estarem longe de terminar, a veterinária não tem dúvidas de que, nos últimos anos, a comunidade se foi tornando mais consciente quanto à importância de respeitar a vida e os direitos dos animais. “Acho que, gradualmente, se vai mudando um pouco a mentalidade. Antigamente, muitos animais eram mortos à nascença e, agora, a pessoa já ganhou uma certa consciência e já não o consegue fazer. Acaba por abandoná-los, o que também não é certo, mas penso que com trabalho e insistência também essa mentalidade vai alterar-se”, salienta.
A esse propósito, o município de Cantanhede tem assumido um papel de destaque na sensibilização da população para a temática do abandono, sobretudo, junto das escolas. “Quando vamos aos estabelecimentos de ensino, fazemos sempre esse trabalho de mostrar a importância de identificar os animais, porque as crianças acabam por ser muito eficazes a transmitir as mensagens em casa”, explica Ana Viana, enfatizando que este “é um trabalho que tem de ser feito e que não pode ser desvalorizado”.
A pouco e pouco, os resultados vão aparecendo. Cada vez são mais as pessoas que optam por adoptar um animal, deixando de lado a hipótese de compra. “Penso que já se começa a perceber que a adoção é também uma forma de aumentar a capacidade de resposta das estruturas que recolhem animais de rua. Por isso, já ponderam a adoção em alternativa à compra e já entendem que um cão ou um gato são seres vivos”, reitera.
Todavia, não deixa de haver trabalho a fazer. O abandono ainda é uma realidade presente no nosso país e Ana Viana acredita que a educação pode ter um papel fulcral para inverter essa situação. “A minha esperança é que esta temática chegue aos currículos das escolas (…) A nível, por exemplo, das aulas de Cidadania. Acho que é uma ótima oportunidade para começar a introduzir este tema, porque há coisas que precisam de ser mudadas”, conclui.
Cátia Barbosa
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 16/10/2026]