CD NA VOZ DE JORGE CRAVO. POESIA DE VÍTOR MATOS E SÁ
Extasio-me a escutar o GRUPO PRESENÇA DE COIMBRA com a voz de JORGE CRAVO no CD POR DENTRO DAS FLORES. Depois de canções de inquietude e de retratos citadinos, JORGE CRAVO surge em novo CD, em modo de excelência a que nos habituou, desta vez tendo como pilares a ternura, o erotismo e algum misticismo. Veste-se com parte do património poético de VÍTOR MATOS e SÁ. Escreve Pedro Pita ser possível que a obra (poética) do saudoso Professor/Poeta “conheça agora outra dimensão de leitura e de reconhecimento”. JORGE CRAVO é acompanhado neste disco compacto por MANUEL BORRALHO e JOSÉ FERRAZ DE OLIVEIRA (guitarras de Coimbra) e por MANUEL GOUVEIA FERREIRA e TIAGO FERRAZ OLIVEIRA (violas). Teórico da canção de Coimbra que muito admiro, na praxis CRAVO merece os nossos aplausos e sempre uma atenção filigranada. O que canta e como canta neste CD são dourados exercícios vocais de uma fidelíssima ligação à música de matriz coimbrã. Perceciono uma omnipresença, a aura de Luís Góis de quem Cravo é cultor. Desta vez JORGE CRAVO edita POR DENTRO DAS FLORES um conjunto de dez canções de Coimbra onde cabem a balada, o tradicional; e em AURORA um aceno de antlanticidade, negritude, bossa nova e chorinho. O fado de Coimbra e canção de Coimbra sempre receberam influências exógenas à urbe e à vida académica e, desta vez, a exogeneidade é inédita e surge no âmago da lusofonia. Como radialista aposto no tema 4 (Primeira Rosa) ao estilo de Homem Só Meu Irmão, onde, após uma fase inicial, o cantor serve com uma voz límpida, cristalina e amorosa, a frase O VULTO MAIS PURO DA TERNURA e uma vocalização final quase transcendentalmente prolongada. É o novo canto de Coimbra a esquecer os grilhões de um passadismo bafiento e amorfo embora sempre com apoteóticas receções. Mais à frente, em AUTOBIOGRAFIA, a marca da balada reacende-se neste disco explosivo de emoções. Este CD é em memória de MANUEL GOUVEIA FERREIRA, de homenagem a JOÃO PEDRO GRAÇA JÚNIOR e dedicado a dois vultos de incomensurável grandeza nesta área coimbrã: JORGE GOMES e OTÁVIO SÉRGIO. Cada leitor de O DESPERTAR que goste da canção e do fado de Coimbra tem de incluir na sua discoteca este novo CD, edição Edisco. Notável e a não perder de ouvido.
FESTIVAL RTP DA CANÇÃO
Festival da Canção. Louvo a RTP pelo seu esforço em modernizar, mas não é necessário exagerar e desaportuguesar. No Festival da Eurovisão há uma babel linguística e cada um canta na língua que quer. Cá por dentro, no nosso Festival, um abraço ao NUNO GALOPIM, seguimos as passadas e ainda do mal o menos. Creio, contudo, ver coreografias estrambólicas que ultrapassam um exercício de vanguardismo. Fidelíssimo ao espírito europeu seria a unidade na diversidade e as variações deviam representar a alma dos países. A dada altura o nosso Festival estagnou e é visível no presente uma aplaudida atitude de renovação, porém, parece conter exageros. Pessoalmente, votaria na canção COTOVIA da DIANA VILARINHO que é orelhuda e tem uma importante mensagem tal como a canção do MARCO RODRIGUES, A MINHA CASA, mas não me desgosta a canção vencedora dos madeirenses NAPA até pela sua temática inequivocamente atual (DESLOCADO). Na Madeira há um alfobre de grandes músicos e detetei isso há muitos anos, quase no início da Gala dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz, em que descobri talentosos compositores insulares. Os NAPA podem ser a versão 2025 do Conjunto Académico de João Paulo. Simplicidade na coreografia, sem unhas avantajadas, nem subidas pelo varão, nem outras que tais, pois a extravagância nem sempre é sinónimo de modernidade e de bom gosto. Até direi, nem significa bom senso.