21 de Outubro de 2021 | Coimbra
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Pandemia expõe situações de profunda solidão

5 de Fevereiro 2021

Há muitas pessoas que não têm qualquer suporte familiar ou rede de amigos a quem possam recorrer neste cenário de pandemia. Para além do agravar das questões de saúde e sociais, a covid-19 está também a pôr a descoberto “um retrato” da sociedade que não deixa de ser preocupante, ao evidenciar que há muita gente só, que não tem ninguém a quem pedir ajuda se for surpreendido pelo vírus, ficar confinado ou, simplesmente, tenha mais dificuldades em sair de casa.

Muito se tem falado sobre as fragilidades sociais e económicas que se estão a agravar com a covid-19. A pandemia mostrou uma realidade nova ou tornou mais transparentes os problemas de quem, já os tendo, passavam despercebidos até agora. A solidão, que até aqui poderia até ser uma escolha ou uma condição de vida – fruto, por exemplo, dos familiares viverem longe –, aparece agora mais associada a um sentimento de desamparo que, em caso de necessidade, obriga a procurar alguém ou alguma entidade a quem pedir ajuda.

E é neste contexto que, cada vez mais, é fundamental o trabalho que é desenvolvido pelas várias instituições da área social, das Câmaras, das Juntas de Freguesia e demais entidades públicas ou privadas, na maioria dos casos desenvolvido de forma articulada e em parceria para poder ajudar efetivamente quem mais precisa.

O programa que o CLDS-4G Coimbra, Concelho Solidário e Saudável tem em curso em 17 Freguesias e Uniões de Freguesia (UF) do concelho é um desses exemplos. Para além de todo o trabalho que desenvolve, este projeto, coordenada e executada pela Obra de Promoção Social do Distrito de Coimbra, adaptou as suas respostas às necessidades que a pandemia trouxe e retomou agora, no início deste novo confinamento, o programa “Convide-nos a ajudar. Nós ajudamos e vamos buscar por si”, que está aberto a todas as pessoas que necessitem que lhes entreguem em casa bens essenciais e também medicamentos.

De acordo com a coordenadora do projeto, Paula Batista, este programa, que visa combater a solidão e o isolamento, minimizando assim as necessidades essenciais da população, está no terreno desde março mas regista agora uma procura muito mais significativa, com mais de meia dúzia de pessoas a pedir diariamente ajuda.

“Há agora muito mais pedidos de ajuda neste segundo confinamento, o que se deve ao facto de haver mais contágios e de estarem mais pessoas isoladas em casa”, explica. Esta resposta funciona todos os dias, de segunda a domingo, para garantir que ninguém fique sem a necessária assistência. Assenta, acima de tudo, na entrega de bens alimentares e também de medicamentos às pessoas que estão isoladas e que não têm quem lhes assegure esta ajuda. Destina-se a grupos em situação de vulnerabilidade social, como idosos, doentes de risco, pessoas com dificuldades de locomoção ou outra incapacidade, pessoas que testaram positivo para covid-19 ou que se encontrem em isolamento profilático.

Perante esta nova realidade e limitações impostas, as pessoas sentem-se “perdidas” e “desorientadas”. Sem revelar dados pessoais, Paula Batista dá como exemplo o caso de “um senhor que ligou desesperado porque a esposa tinha testado positivo e não estavam preparados para estarem confinados 14 dias”. A ansiedade devia-se não só aos bens alimentares de que precisavam mas também à manutenção de outras rotinas, como o simples ato de despejar o lixo.

Sem mais suporte familiar ou amigos próximos a quem recorrer, agravam-se as preocupações, tudo parece mais difícil e assustador. Paula Batista explica que, mesmo com situações financeiras estáveis, “as pessoas estão muito ansiosas e assustadas”.

Esta equipa tem quatro pessoas na rua para garantir esta resposta, todos os dias, entre as 9h00 e as 20h00. São as pessoas que assumem as despesas com as compras, num planeamento conjunto dos pagamentos e entregas. Mas, em caso de carência identificada, a equipa do CLDS articula com as Comissões Sociais de Freguesia, de forma a garantir que, no atual contexto, ninguém fique confinado em casa sem alimentação ou medicação.

“Há pedidos de ajuda todos os dias e com grande frequência. As pessoas ligam-nos muito ansiosas e no final há um sentimento de muita gratidão por quem fez o serviço. Quando vamos entregar, as pessoas vêm à janela acenar ou ao intercomunicador muito agradecidas. Ficamos com o coração muito apertado”, explica, deixando também um apelo às pessoas para que “não tenham medo de ajudar”.

“Penso que há algum receio e desinformação. Não creio que todas as pessoas que nos contactam – e nunca são as mesmas porque asseguramos apoio logo para vários dias – não tenham uma pessoa amiga que as pudesse ajudar. Nós deixamos tudo à porta, devidamente acondicionado, e não vemos ninguém. Não temos contacto com ninguém”, realça.

“As pessoas estão muito sozinhas e não têm quem as ajude. Não consigo perceber que existam tantas famílias que não tenham qualquer tipo de suporte de amigos ou familiares”, lamenta, sendo esta uma “realidade triste” que se está a tornar mais transparente neste cenário de pandemia.

Esta realidade é mais evidente nas freguesias urbanas, uma vez que nas rurais há uma rede de maior proximidade e há sempre um amigo ou vizinho disponível para ajudar.

Entrega de refeições aos alunos confinados

Para além deste apoio, no âmbito deste programa, o CLDS-4G está a apoiar também diariamente na entrega de refeições escolares ao domicílio, devido ao encerramento das escolas, a crianças em que os pais ou restante família estejam em confinamento. Paula Batista explica que foi preciso “reajustar o programa e o plano de intervenção” e dá conta que, neste contexto, estão a ser entregues atualmente “duas refeições em Assafarge, quatro em Fala, uma no Bairro do Ingote e uma em Logo de Deus”. Estas refeições são oferecidas pela Câmara Municipal de Coimbra, que está a assegurar também esta resposta aos alunos com apoio social escolar do concelho que o solicitem, num trabalho articulado com as Juntas de Freguesia.

Estes são apoios pontuais que o programa assegura atualmente, juntando-se às outras áreas de intervenção. Quem precisar destes serviços, deve ligar para o número 239 160 958 ou enviar email para geral.clds.coimbra@gmail.com.

CLDS-4G trabalha por um concelho mais solidário e saudável

Com gabinete no Loreto, o CLDS-4G atua nas Freguesias de Almalaguês, Brasfemes, Ceira, Cernache, Santo António dos Olivais, São João do Campo, São Silvestre, Torres do Mondego e nas UF de Antuzede e Vil de Matos; Assafarge e Antanhol; Eiras e S. Paulo de Frades; Santa Clara e Castelo Viegas; São Martinho de Árvore e Lamarosa; São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades; Souselas e Botão; Taveiro, Ameal e Arzila; e Trouxemil e Torre de Vilela.

Financiado pelo Fundo Social Europeu e pelo Orçamento de Estado, tem como propósito promover a inclusão social de grupos socialmente vulneráveis, constituindo-se como um instrumento de combate à exclusão social, fortemente marcado por uma intervenção de proximidade realizada em parceria com as diferentes entidades do concelho. Aposta em dois eixos – Emprego, Formação e Qualificação e Intervenção Familiar e Parental, preventiva da Pobreza Infantil -, cujo âmbito geográfico incide em 17 das 18 freguesias do concelho (exceto União das Freguesias de Coimbra, uma vez que é da abrangência de outro programa).


  • Diretora: Zilda Monteiro

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