19 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Os Velhos Não São Farrapos

21 de Março 2025

A Esperança Média de Vida na União Europeia, de acordo com uma notícia do Jornal Expresso, ultrapassa 85 anos. Aquilo que seria uma boa notícia pode revelar-se um desafio: mais de metade desses anos são vividos com doenças crónicas e incapacidades. Então esta realidade é, simultaneamente, uma conquista e um problema. É preciso estudar muito, para melhorar indicadores de qualidade de vida depois dos 65 anos e não dar ouvidos aos populistas.

Aqueles que eu designo por Os Outros.

Oh xenófobos, cuidadores maltratatantes, idadistas sem pudor.

O vosso fim, também será um calvário e dor.

Esperai,

A vida depressa se esvai.

 

Dizem Uns:

I

Os velhos não são farrapos,

Nem rodilhas, nem frangalhos,

Nem roupa de deitar fora,

Nem quase – gente, como se diz agora.

 

II

Os velhos são sabedorias adquiridas,

São repositórios de memórias.

Esbulha-las das suas vidas,

Abre chagas e muitas feridas.

 

Dizem Os Outros

 

I

Os velhos, só servem p ´ra encher esplanadas, apinhar as urgências dos hospitais,

Passear nos passeios e nos transportes municipalizados, e, em outras coisas que tais.

São pouco asseados, descuidados, maníacos, quedam nos buracos das ruas,

Usam bengalas para equilibrar as já desarticuladas pernas suas.

 

II

Os velhos são o estorvo da nova geração,

O presente envenenado e a revolta de parte da população;

A prisão quase permanente para os filhos,

Bem pragueja o povo, os velhos são pecadilhos.

 

III

Os velhos são p ´ra gastar dinheiro nos cuidados continuados,

Estão dementes, agressivos, só falam de doenças, dão trabalho por todos os lados,

Usam andarilhos, cadeiras de rodas, os mais desequilibrados,

Sobrevivem à custa dos muitos medicamentos tomados.

 

IV

Com eles tudo ocupa espaço, tempo, embaraço,

Logo é urgente tirá-los de casa, procurar um lar,

Onde haja, sem amor sentido, aquele abraço;

Estágio final, lugares recolhidos, sem estrelas no céu, nem luar,

Um Sol bastardo que não os faz olhar pr´a sonhar.

 

V

Os velhos, hoje p ´ra morrer, espera-os esta nova mansão,

Onde se sucumbe quase sem nenhum coração,

Com viagem marcada, p ´ra parte incerta, por comiseração,

Perdidos nas cinzas ou no terroso chão.

 


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