24 de Janeiro de 2026 | Coimbra
PUBLICIDADE

António Inácio Nogueira

Os Nossos Gatos

13 de Dezembro 2024

A subfamília dos felíneos (Felinae), que agrupa os gatos domésticos, surgiu há cerca de 12 milhões de anos.

Devido à sua personalidade independente, tornou-se animal de companhia em diversos lares ao redor do mundo, agradando a pessoas dos mais variados estilos de vida.

Os egípcios foram, porventura, o povo que primeiro se ligou de forma intensa a este animal. Havia leis bem duras para quem tratasse mal estes animais. Quem matasse um gato era punido com pena de morte e, em caso de morte natural do animal, seus donos deveriam usar trajes de luto

Devido ao facto de serem exímios caçadores e auxiliarem no controle de pragas, durante muitos séculos os gatos tiveram posição privilegiada na Europa cristã. Porém, no início da Idade Média, a situação mudou: gatos foram acusados de estarem associados a maus espíritos e, por isso, muitas vezes foram queimados juntamente com as pessoas acusadas de bruxaria. Ainda hoje, existe o preconceito de que as bruxas têm um gato preto de estimação, sendo esse animal associado aos mais diversos tipos de feitiços.

No fim da Idade Média, a aceitação dos gatos nas residências teve novo impulso. O fenómeno relacionado à aceitação dos felinos após o fim da Idade Média também se estendeu às embarcações, nas quais passou a ser muito comum aos navegadores terem gatos como mascotes. Conhecidos como «gatos de navios», esses animais assumiam também a função de controlar a população de roedores a bordo da embarcação

Os gatos são animais muito higiénicos, o que também facilitou a sua vivência com os humanos.

Os hebreus acreditavam que o gato teria sido criado por Deus dentro da Arca. Noé, preocupado com a proliferação dos ratos que se procriavam excessivamente na embarcação, implorou a Deus para que providenciasse uma solução. Deus então fez com que o leão da Arca espirrasse, e do espirro desse felino, surgiram os gatos domésticos.

 

Um gato preto doméstico.

Na actualidade o Japão é o melhor exemplo onde a relação entre donos e animais de companhia, com destaque para os gatos, é tema constante de livros. O número de títulos de autores deste país que incluem a palavra «gato» é gigantesco. Pode – se dizer que, além de responder aos anseios dos leitores, tem sido a salvação do mercado editorial.

Romances como “Eu Sou Um Gato” ou “Um Gato, Um Homem e Duas Mulheres”, fizeram furor editorial. Um dos romances mais recentes, sobre a temática é de 2012. Genki Kawamura faz da pergunta “ E Se Os gatos Desaparecessem da Terra?”, o título de um dos seus êxitos. Hoje, “ Vinte Anos Com A Minha Gata” de Myume Inaba torna-se um clássico moderno japonês e bestseller internacional. A gata Mi e a autora são amigos inseparáveis. O livro é uma carta de amor à companheira gato (meditações profundas e comoventes sobre as forças que nos permitem estabelecer ligações e construir uma vida). [ a minha vénia à Wikipédia e  Revista Bertrand]

0 escritor Gonçalo M. Tavares, num artigo publicado no Jornal Expresso sob o título “ Uma Imagem da Guerra”, conta-nos a história de uma mulher que após o seu apartamento ter sido bombardeado e destruído, aparece na rua com a única coisa que lhe resta ao colo: um companheiro de vida nos bons e maus momentos, o seu gato.

No entanto, o livro sobre gatos que me surpreendeu, pela escrita fluida, maravilhosa, foi o “ Manual Prático de Gatos Para O Uso Diário e Intensivo” de Eugénio Lisboa (2024). Estamos em presença de um intelectual de elevada craveira cultural e com um percurso de vida invejável.

O livro é uma ficção – poesia e o reportório da sua vida com a companheira gata Íris. O autor fala-nos sobre a grande vantagem de ser gato, das suas qualidades, dos seus poderes, generosidade, amizade, daquele que não desiste e que quer ser visto.

O livro está recheado de poemas ao gato, de qualidade elevada. Deixo aqui, aos meus leitores, parte de um soneto que me empolgou sobremaneira:

(…)

O gato sabe tudo ou quase tudo,

Mas o «quase» tudo é só para ser modesto,

Porque foi à custa de muito estudo

 

E de manejar muito palimpsesto,

Que o gato se fez grande Doutor,

Sem favor, com distinção e louvor.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

Todos os direitos reservados Grupo Media Centro

Rua Adriano Lucas, 216 - Fracção D - Eiras 3020-430 Coimbra

Powered by DIGITAL RM