8 de Março de 2026 | Coimbra
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Orlando Fernandes

OPINIÃO: SE NÃO TIVESSE HAVIDO O 25 DE ABRIL

21 de Abril 2023

A polémica à volta da participação – ou não – de Lula da Silva na sessão solene comemorativa do 25 de Abril foi um daqueles episódios que servem para alimentar debates nas televisões e fazer manchetes de jornais durante três dias.

De resto, não serviu para nada.

O que adiantava ou atrasava que Lula da Silva discursasse na cerimónia?

Claro que também o digo porque dou muito pouco valor a este tipo de comemorações – seja o 25 de Abril, o 5 de Outubro ou o 1º de Dezembro.

Considero-os atos pueris, inúteis, destituídos de interesse.

Não adiantam nada; são momentos puramente laudatórios, onde a reflexão está ausente e qualquer voz dissonante é mal recebida.

O 25 de Abril reúne à sua volta um grande consenso porque foi uma revolução sem mortos e porque trouxe a democracia a Portugal.

Isto é indiscutível.

Mas se quisermos ir um pouco mais longe e mais fundo, será forçoso perguntar; como estaria hoje o país se não tivesse havido o 25 de Abril?

Estaria melhor ou pior?

A esmagadora maioria dos portugueses dirá que estaria pior.

Não se atreveria sequer a colocar a hipótese contrária.

Ora, eu acho que não estaria nem melhor nem pior – estaria mais ou menos como está.

A ditadura teria dado lugar a uma democracia, a guerra colonial teria acabado e Portugal estaria integrado na União Europeia.

E por que digo isto?

Porque a abertura iniciada por Marcello Caetano redundaria fatalmente numa democracia política.

Marcello foi o Gorbatchov português.

Todo o edifício político montado por Salazar ficou em xeque com as reformas que ele empreendeu.

Os velhos salazaristas – como Cazal-Ribeiro ou Reboredo e Silva – começaram a já não ser bem vistos no Parlamento.

Os oficiais, fustigados por sucessivas comissões nas colónias, começaram a não querer ir para a guerra.

E o ar do tempo corria em sentido contrário: as ditaduras na Europa tinham caído, os impérios coloniais tinham caído; Franco ainda era vivo mas estava muito velho: tinha 82 anos, e todos esperavam a sua morte para iniciar uma nova era.

Em Portugal, a democracia, o fim da guerra e a integração na Europa eram inevitáveis. Embora o prolongamento da guerra provocasse mais perdas de vidas.

Nessa medida, é possível pensar que, sem 25 Abril, Portugal estivesse até financeiramente melhor do que está, porque não teria havido a destruição do tecido económico que se verificou após a revolução.

Basta falar do afundamento do grupo CUF, então o maior da Península Ibérica; da nacionalização da banca e dos enormes prejuízos que causou; dos desmandos da reforma agrária.

Uma evolução sem revolução teria pouco tudo isto.

Claro que se trata de especulação, pois a contraprova em História é impossível de fazer.

Não é possível saber como evoluiria o país caso certos factos não tivessem acontecido; e em qualquer caso, os ´ capitães de Abril´ não o podiam adivinhar.

Mas é uma especulação plausível.

Os partidários das revoluções dizem que elas são por vezes indispensáveis para desbloquear certos impasses que ocorrem no percurso das nações.

Dizem, que são ´males necessários´.

Ora, julgo – exatamente ao contrário – que são quase sempre ´males desnecessários´.

Sobre serem ´males´ não há dúvida.

Vejam-se os horrores da revolução, francesa da revolução russa, do nazismo alemão, do maoismo…

Foram muitas centenas de milhões de mortos.

Valeram a pena?

Se não tivessem acontecido, os países estariam pior?

E em muito menor escala, o que pensar da revolução cubana, da revolução cambojana, da revolução bolivariana na Venezuela, mais recentemente?

Mesmo a nossa revolução republicana de Outubro de 1910, ainda hoje tão celebrada por alguns setores, não resolveu nenhum dos problemas estruturais que vinham da monarquia constitucional e, pelo contrário, agravou-os.

A maior parte das revoluções que conhecemos foram momentos terríveis da história dos povos.

Por isso, sou convictamente antirrevolucionário.

As grandes transformações que conhecemos, que mudaram radicalmente a vida das pessoas, não foram impostas pela força das baionetas ou por ditadores iluminados.

Resultaram de descobertas científicas ou tecnológicas e impuseram-se pacificamente através de uma evolução gradual das sociedades.

Assim aconteceu com a revolução burguesa, com a revolução industrial, ou com a revolução digital, em cujo processo ´revolucionário´ ainda nos encontramos envolvidos.

Enquanto as revoluções políticas começam com a tomada do poder e depois submetem as sociedades pela força, de cima para baixo, estas processaram-se de baixo para cima sem violência nem sangue.

Mas transformaram por completo o funcionamento das organizações e o quotidiano dos cidadãos.

São estas as verdadeiras revoluções.

 

 

 

 

 


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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