A Comissão de Inquérito à TAP foi o melhor que podia acontecer a António Costa. Não só vai distraindo o país da sua miséria – do caos no SNS à desgraça da Educação, passando pela pobreza promovida pelo assalto fiscal, tudo se esquece quando há episódios da novela venezuelana no ar – como é instrumento perfeito para queimar opositores de dentro e de fora.
Tempos houve em que o primeiro-ministro até queria ter alguém que contasse a tomar conta dos aviões e dos comboios, a gizar estratégias de investimento para a ferrovia e a cuidar do dossier da reprivatização da TAP, por ele nacionalizada. Mas isso implicava realizar projetos e cumprir reformas, o que chateia sempre alguém. Por alguma razão, o Plano de Drenagem de Lisboa, cujas obras hoje traumatizam quem se move na capital, foi mantido no fundo da gaveta durante uma década de governação autárquica socialista sem que Costa ou Medina lhe tocassem, apesar de as cheias se repetirem amiúde.
Depois de o saliente Pedro Nuno ter aplicado a solo aquele golpe da solução para o novo aeroporto que afinal não era (mas ainda vamos ver que afinal sempre será…), Costa comprovou o que já testara com Cabrita: se o objetivo não é fazer mas sobreviver, um ministro por um fio que centralize a aversão popular é o melhor instrumento político que um primeiro-ministro em sobrevivência corrente pode ter na mão, João Galamba é agora quem cumpre a função para desempenhada pelos seus camaradas – com a vantagem acrescida de manter ocupada uma cadeira na qual Costa já não é capaz de convencer ninguém a sentar-se. É cadastro para a vida toda.
Enquanto o país segue hipnotizado pela Comissão de Inquérito e distraída a substituir Pedro Nuno Santos por João Galamba à cabeça da lista de vilões da pior novela da vida real que já aqui se produziu, o primeiro-ministro recosta-se e regozija-se com a mediocridade generalizada. E só pode rir-se de quem acredita que em breve vai correr com João Galamba das Infraestruturas, ou com Céu Antunes da Agricultura ou com João Costa da Educação…Hão de cair de maduros quando deixarem de lhe servir, nem um dia antes.
Pelo caminho as sucessivas audições vão ajudando a minar a reputação dos putativos sucessores à liderança do PS de Pedro Nuno a Medina, dividindo opiniões conforme falam ou são falados. E António Costa deixa seguir o circo, à distância de um concerto de Coldplay, planeando já as férias e brindando a mais um orçamento garantido no camarote da final da Liga Europa.
António Costa sabe bem que a maioria absoluta tirada a ferros à terceira tentativa não foi confirmação de uma vontade alargada, foi o remédio que o povo preferiu tomar para que não se tornasse pior o que já se sabia periclitante. Entre a covid longa a contagiar o contexto socioeconómico interno e externo e a sólida ameaça de guerra na Europa, e fugindo de Rio a sete pés, arriscar voltar a dar protagonismo à extrema-esquerda seria desastroso.
A maioria foi-se logo que fecharam as urnas e contaram os votos, mas o desastre da governação não tem beneficiado o PSD. E também aí a Comissão de Inquérito conta. Absorvida pelo relato escalofriante, a posição perde oportunidade de se mostrar e afirmar como alternativa.
O PS tem somado absurdos e irresponsabilidades, até casos de polícia. O governo congelou reformas e paralisou as políticas públicas. Mas há quatro messes que o palco é monopolizado por um comutador tirado de um ministério e recuperado pelos serviços secretos, uma indemnização devolvida com grande dificuldade, uma CEO despedida de uma empresa pública que pôs a dar lucros à custa de reduções salariais, despedimentos em massa e corte de atividade. Uma Comissão de Inquérito que chegará ao fim sem consequências, políticas ou outras.
A CPI é definitivamente a melhor coisa que aconteceu a António Costa, que vai conseguindo passar de fininho e não cai para lá da fasquia que o deixou em empate técnico nas intenções de voto com Montenegro – ainda a fazer um ano de liderança, é certo, mas que tem sido incapaz de entusiasmar.
O governo não governa, gasta tempo e dinheiro a resolver os imbróglios que ele próprio gera. Mas enquanto o PSD se mantiver como mais um na massa da oposição crescente – na maioria das vezes nem o primeiro nem o mais contundente nas ideias e críticas -, António Costa sobreviverá mais um dia, à espera do comboio para uma melhor oportunidade. E ainda vai conseguindo capitalizar simpatias nos episódios infelizes que amplifica enquanto varre mais desgraças para baixo do tapete.
Em janeiro de 2022, António Costa conseguiu 2,3 milhões dos 5,5 milhões de votos registos. Menos de ano e meio passado, 70% dos portugueses dizem que a sua governação é má ou péssima e que a situação económica do país está a piorar desde o verão passado. Mas na hora de votar, metade deles insistiria no erro. É que o mal que já se conhece é mais certo do que uma aposta no desconhecido. E enquanto a CPI durar, não há espaço para ninguém sobressair.