6 de Dezembro de 2025 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

O Silêncio das Memórias de Um Introvertido

31 de Outubro 2024

I

Fui ao cemitério da Conchada com a minha mulher e a Graça. Como não posso fazer quase nada, no que toca a exercício físico, enquanto elas ficaram no jazigo, nas limpezas costumais, percorri a Alameda do Cemitério e cheguei ao Largo da Conchada.

Lembrei-me de visitar a casa onde estive hospedado, enquanto estudante da universidade. Ela lá está, sem tirar nem por, só com uma cor diferente: era castanha e agora é azul (o nº 7, 1º Dto, da Rua Frei Tomé de Jesus). Partilhava um quarto com o Peres que frequentava Medicina e já faleceu. Ali comia, dormia, estudava e dali saía para a vadiagem, até às tantas da madrugada.

Naquela casa só rapazes eram hóspedes. O andar esquerdo, contíguo, era só de raparigas. De varanda a varanda, falávamos ou namoriscava-se. Dali saíram dois casamentos, que me lembre. Naquele tempo era assim, já lá vão mais de sessenta anos. Era uma rua muito bonita, sem saída, serena, ou não estivesse abençoada pela madre Sameiro, que todos bem respeitávamos. Havia convívio entre os moradores e, ainda hoje, recordo nomes de pessoas que ali viviam.

Sentei-me num muro e estive alguns minutos, em silêncio, olhando a rua e a casa.

Olho em redor e recordo o Colégio de S. José, um colégio de meninas bem apessoadas, trajadas com farda castanha (?). No Verão, a seguir ao jantar, passeavam-se em grupo acompanhadas de uma Madre. Lá estava a nossa varanda, cheia de rapazes, a assistir ao santo sacrifício da caminhada. É claro que ao vê-las passar, saíam da nossa boca algumas graçolas, sempre cuidadosas, não fosse a Madre escandalizar-se. A varanda era conhecida pelas meninas, como a «varanda dos rapazes do 7». Um dia a Madre Superiora, enviou-nos um bolo com um bilhetinho: “Pelo respeito que sempre têm manifestado pelas meninas.”

Passado uns dias, dirigimo-nos ao colégio para fazer os devidos agradecimentos. Fomos deferentemente recebidos com um «cházinho».

Estive quase meia-hora, silenciado por tantas memórias tardias. Valeu a pena!

Levantei-me e voltei ao sítio de onde parti de alma aconchegada.

Srª D. Micas (como carinhosamente era por nós tratada), onde quer que esteja, receba o meu obrigado e reconhecimento por me ter tratado tão bem. Obrigado.

II

Hoje fui visitar a campa do meu pai. Todos os anos cumpro este ritual. Gosto de chegar ao local, posar-me em frente, e, em silêncio profundo, conversar tempos idos e episódios de vida. Enfim, estórias e memórias.

Ao proceder assim, sinto-me compensado por dentro e por tudo. Hoje estive lá bastante tempo, falando para o íntimo, comendo o silencio.

Despeço-me e, no regresso, vou mais liberto.

Como fui sozinho, e a campa fica no derradeiro «comoro» (como dizia a minha mãe) do cemitério, tive oportunidade de me imbuir no meu viciado espírito de observação. Bendita a hora em que o fiz, para denunciar o desleixo que as entidades públicas e privadas, votaram este histórico local de Coimbra.

Pasmei com a quantidade de jazigos em ruínas, uns sem portas, outros desventrados, urnas meias podres e vulneráveis. O que será preciso fazer para que os proprietários sejam chamados à responsabilidade? Não há leis, não há disposições camarárias que a tal obriguem? Respondam-me, por favor.

No entanto, o que mais me impressionou foi a negligência da entidade pública. Chegamos à entrada principal do cemitério. A sujidade obscureceu as paredes tornando ilegíveis os bonitos versos nelas plasmados. Agora, ao entrar, já não escutamos o soletrar dos poemas em leitura de silêncio. Agora não há silêncio, há ruído.

Atravesso a porta e sigo pela estrada principal, chamemos-lhe alameda central. Ao fundo, deparamo-nos com o grande Jazigo Municipal da Conchada, quase em ruína: vidros partidos, portas e janelas abaladas ou deterioradas, entradas sem fechaduras e algumas fechadas a cadeado. Olhei, pasmei!… Haja vergonha que baste.

Indignação minha. O silêncio dos mortos está quebrado.

Tais factos, fizeram-me lembrar o livro de Susan Cain, Silêncio. O poder dos introvertidos num mundo que não para de falar.

O silêncio hoje, por mim prescrito, fez-me pensar até que ponto é profundo e perturbador o domínio dos extrovertidos, dos exibicionistas, dos sedutores, dos charlatães, porventura dos políticos.

E apetece-me dizer: Olá mundo perverso…


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