Coimbra vive, em 2025, um ano fora do comum, marcado por duas efemérides de peso: os 400 anos da canonização de Isabel de Aragão e os 700 anos da sua peregrinação a Santiago de Compostela. Evento que ampliou o calendário de celebrações das Festas da Cidade e da Rainha Santa, conferindo ao município uma aura de religiosidade, solenidade e memória viva ainda mais intensa neste ano.
Mas não foi nos concertos, nas exposições ou nas cerimónias oficiais que essa essência se revelou. Foi no entardecer do dia 10 de julho, quando a imagem de Santa Isabel desceu do altar do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova e peregrinou junto dos seus fiéis pelas ruas. A Procissão de Penitência não é apenas um ritual — é um espelho da própria cidade.
Do alto do andor, ela vê o que poucos veem. Observa famílias reunidas por sua causa nas margens do Mondego. Fiéis que reservam seus lugares desde o começo da tarde, à espera da sua passagem. Vê amigos que se reencontram depois de anos, atraídos pelo rito que atravessa gerações.
A Rainha vê também o futuro nos rostos dos jovens e muitas raparigas vestidas como ela. Vê crianças que crescerão na sua cidade, abençoadas por um grande exemplo de vida. Vê pessoas nas janelas, varandas enfeitadas e colchas penduradas. Observa cada olhar marejado, cada par de mãos em prece e as promessas pagas por aqueles que a seguem de joelhos.
E vê, sobretudo, como Coimbra ainda a acompanha.
José da Costa, ourives que passou cada um de seus 93 anos na cidade, resume as comemorações com simplicidade: “Não é uma festa, é um sentimento”, diz ele. “Lembro-me do tempo em que a imagem era recebida na Igreja da Graça. Depois passou a ir para Santa Cruz, porque cabia mais gente. Mas o respeito era o mesmo. Só fechávamos a porta depois de passar o último da procissão. As janelas estavam sempre enfeitadas. Não era só costume — era uma forma de honrá-la”.
Fala das velas acesas, das músicas, dos trajes antigos. Das suas lembranças com o fogo-de-artifício, da Rua da Sota, dos discursos dos bispos, dos cavalos a andar e dos membros da Confraria da Rainha Santa Isabel. A fé, para ele, não mudou. Convive com a modernidade, sim, mas permanece firme. “Há quem ainda a acompanhe ajoelhado, hoje com proteções, é verdade. Estudantes, devotos — tudo como antes”. O comércio já não é o mesmo, reconhece. O turismo, também: “Antes da pandemia e das recentes guerras na Europa e no Oriente Médio, tínhamos mais pessoas pela cidade nesta altura… Hoje são menos e ficam poucos dias”.
Este ano, inclusive, a mensagem do clero conimbricense foi um apelo pela paz. Paz no mundo, paz entre os povos, fim dos conflitos que consomem vidas e alimentam o medo, temas caríssimos para Santa Isabel, a pacificadora.
E a Rainha vê — com certeza vê — como Coimbra acolhe. Vê os forasteiros que aqui encontram menos muros e mais mãos estendidas do que noutras cidades. Vê a gentileza que brota do quotidiano, o orgulho discreto de um povo que sabe ser abrigo. E orgulha-se. Porque sabe que a sua cidade continua a ser casa.
Por isso, na noite de domingo, quando regressou, a Rainha Santa talvez tenha se sentido mais leve. Porque viu — e reconheceu — que a sua cidade ainda sabe inclinar-se na fé, esperar pacientemente e abraçar com ternura.
E nós, que a vemos passar, só podemos imaginar o que ela vê e, na nossa humanidade, desejar merecer-lhe também o olhar. Um olhar que guarda e guia os nossos. Esses que, em resposta, continuam a erguer-se aos céus em tempos incertos como estes, mesmo após tantos séculos.
Marcelo Domingues Tomaz