Ao iniciarmos as considerações, que se seguem, apelamos à benevolência dos especialistas que nos relevem por intercalarmos alguns “apostos” para integramos os leigos, como nós, na compreensão do “todo”, que são as causas e as consequências das catástrofes que nos têm atingido nas últimas semanas (desde 28/1/2026),
Os colapsos das infraestruturas e as inundações austeras, provenientes das cheias na região de Coimbra, incluindo a rotura de dois diques (canais destinados a represar as águas correntes, que evitam o alargamento e inundações dos campos e de outras superfícies urbanas) no rio Mondego e a derrocada de um setor da A1, resultaram de uma combinação de fatores, que insinuam a partilha de responsabilidades – fenómenos meteorológicos extremos, falhas no ordenamento e infraestruturas, gestão das barragens, responsabilidade das autoridades.
Essas autoridades avaliam a situação como mais preocupante, enquanto registam inundações de retorno na região, devido à fragilidade das barreiras no rio velho e à intensa precipitação, até por que a região de Coimbra não está imune aos efeitos das alterações climáticas, de acordo com o Plano Municipal, que contém e prevê uma diminuição da precipitação e das alterações da sazonalidade, com a redução do período húmido, mas um aumento da pluviosidade no período de inverno, com uma ocorrência de cheias e o aumento do período estival.
Nos últimos 35 anos ocorreram 11 catástrofes com caudais de cheia registados no Açude-Ponte superiores a 1200m3/s, valor estabelecido para um período de retorno de 100 anos em regime de escoamento regularizado. Na cheia de 27/1/2001 o caudal máximo instantâneo afluente ao Açude-Ponte foi de 1990m3/s; no dia 11/1/2016 foi de 1448m3/s e, um mês depois, a 13/2, atingiu o caudal máximo de 1990m3/s. Mas na cheia de 21/12/2019 teve a maior ponta de cheia, em regime regularizado, com um caudal de 2184m3/s, ultrapassando o valor de 2000m3/s, previsto para uma cheia milenar (inundação com período de retorno de 1000 anos, que tem uma probabilidade estatística de 0,1% de ocorrer em qualquer ano dado – medida a probabilidade e longitude) em regime de escoamento regularizado, devia ter feito soar o alarme de reflexão e de vigilância dos pontos mais suscetíveis …
Estas cheias causaram perdas significativas de muitos milhões de euros nos patrimónios público e privado, nas infraestruturas e nas estruturas hidráulicas, tendo afetado populações ribeirinhas e obrigado à evacuação de centenas de pessoas, corte de estradas, interrupção do caminho de ferro, destruição de campos agrícolas, etc.
Depois da entrada em funcionamento das barragens da Aguieira, Raiva e Fronhas até às grandes cheias do inverno de 2000/2001 (há 26 anos) que as estruturas de proteção contra as cheias incutiram (ilusoriamente) na sociedade e nas organizações estatais competentes um sentimento de segurança contra o efeito de dique. Porém, verifica-se que por diversas vezes foram ultrapassados os valores de caudais estabelecidos para cheia centenária (descreve a intensidade e a raridade de inundações, baseando-se em probabilidades estatísticas e não em ocorrência literal a cada 100 anos) e para valores superiores a 1900m3/s, mas a obra hidráulica não se tem revelado competente, face às ruturas já ocorridas nos diques.
Daqui se infere que desde aquelas cheias severas até janeiro/fevereiro de 2026, que a futura barragem de Girabolhos, lançada por José Sócrates, e encetada por António Costa, tem sido um projeto marcado por longos períodos de paragem, incerteza e controvérsia, frequentemente descrito como uma “história traumática” de duas décadas de adiamentos, cujas vicissitudes incluem Idas e Vindas e “Gavetas”. O projeto esteve parado “na gaveta” há mais de 20 anos, tendo chegado a ser cancelado anteriormente (frequentemente associado à administração do mesmo dr. António Costa)
Pelo acabado de referir, pode afirmar-se que os governos estavam ao corrente dos perigos das cheias severas, ou deviam estar, assim como os técnicos responsáveis pela verificação e manutenção eficientes também não cumpriram as funções que lhes competiam, de fazerem chegar às entidades superiores os respetivos resultados, preferindo desafiar as forças da Natureza, confiando antes na ciência dos projetistas, engenheiros e obreiros das barragens, dos diques e do efeito fusível nos pontos em que foram implantados ou, então, revelaram-se incompetentes; não procederam às vistorias periódicas necessárias e às eventuais reparações decorrentes ou ficaram na expectativa dos efeitos das últimas catástrofes (cfr. entrevista, em linguagem vernácula, dada pelo sr. Prof. Jorge Paulino Pereira, do IST, à Sic Notícias, no dia 11/2/2026, pelas 15,13horas).
Mas, entretanto, no calor da refrega, procuraram debitar opiniões para todos os lados, a acusarem indiscriminadamente outros parceiros do mesmo ofício, ou afins, de que são exemplos inelutáveis os conteúdos sistemáticos dos comentadores convidados (que deviam deixar antes no exterior as suas tendências ideológicas) para todos os canais televisivos, para mais, acolitados por alguns pivôs, que aproveitam para lançar gasolina na fogueira, espevitando as divergências concomitantes.
Demonstrámos assim à saciedade como técnicos, comentadores e alguns detratores de ouvido desferiram nos atuais governantes as responsabilidades (únicas) das catástrofes anteriores e, inclusive, das agora vividas, em vez de chamarem imperativamente à colação os antecessores governantes (sem dúvida os naturais responsáveis), como acabámos de inquirir.
Há muitas entidades, de per si, responsáveis pelos muitos males que, irresponsavelmente, causaram ao país, que se deviam preocupar com firmeza e denodo, em rever a sua honra e a cultura da verdade, assumindo a sua quota-parte, em vez de a alijarem nos outros corresponsáveis, para a culpa não morrer solteira..!
(cfr. google e outras redes sociais)