2 de Dezembro de 2020 | Coimbra
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JOÃO PARDAL

O Padre Estevão Cabral e a Mata do Choupal

20 de Novembro 2020

Padre Estevão Dias Cabral (1734 – 1811) ingressou na Companhia de Jesus aos 17 anos. Com a expulsão dos Jesuítas decretada pelo Marquês de Pombal foi para Roma ensinar Matemática na Universidade Gregoriana, tendo publicado obras de matemática e hidráulica.

Regressado a Portugal em 1788, é chamado, em 1791, pela Rainha D. Maria I para desenvolver um plano para a resolução dos problemas do rio Mondego, que à saída de Coimbra tomava o rumo para Norte, para atravessar os campos do Bolão em direção à Geria e a partir daí corria na planície aluvial do Baixo Mondego desgovernado em vários alvéolos, deixando na maior aflição as populações sempre que havia uma cheia e os campos completamente areados. O Príncipe Regente, futuro D. João VI, por alvará de 28 de Março de 1791, da responsabilidade de José Seabra da Silva, então Ministro do Reino, determinou o encanamento do rio Mondego, segundo o plano e a direcção de Estêvão Cabral.

Para a concretização dessa obra Estevão Cabral elabora um estudo intitulado “Memória sobre os damnos do Mondego no Campo de Coimbra, e seu remédio”, que foi apresentado publicamente na Academia Real das Ciências, da qual viria a ser membro aos 55 anos de idade. O plano consistia num novo percurso do Rio Mondego, de Coimbra à Figueira da Foz, para regularizar o Baixo Mondego.

Chegados aqui, é o momento em que o Padre Estevão Cabral se cruza com a história da Mata do Choupal, e também com a da Mata da Geria, contemporânea da primeira. Este Padre e Engenheiro, a partir de 1791, muda o percurso do rio mais para Sul, e no lugar da “Quebrada Grande” manda plantar uma mata para delimitar as novas margens, de forma a fixar os terrenos ribeirinhos e minimizar o efeito destruidor das cheias.

Passados mais de duzentos anos sobre o início da sua plantação, a Mata do Choupal encerra agora o esplendor de um arboretum secular, apresentando uma vegetação muito variada, frondosa e cerrada, constituída, essencialmente, por um povoamento misto de folhosas, com predominância de caducifólias. Inicialmente foram plantados choupos (Populus spp.), ulmeiros, salgueiros, amieiros, freixos e outras espécies de crescimento rápido. Contudo, foram os choupos que lhe deram a identidade.

Apesar da mata não representar uma relíquia da vegetação climácica ribeirinha, ainda possui espécies autóctones dessa composição fitossociológica. Esta Mata possui uma extraordinária riqueza em árvores de espécies autóctones e exóticas, como a sequoia, o podocarpo, o teixo-da-china, o cedro-do-himalaia, o jacarandá-amarelo, a araucária-de-norfolk.

A monumentalidade das suas árvores marcam a paisagem ribeirinha e definem-lhe o traço. Alguns eucaliptos, introduzidos em finais do séc. XIX, com a colaboração do Jardim Botânico de Coimbra, através do Professor Doutor Júlio Henriques, possuem alturas que variam entre os 50 e os 60 metros, outras árvores, como os plátanos da entrada principal, os freixos, os adernos, e alguns lódãos têm, também, portes invulgares.

Independentemente da época do ano, as aves enchem o Choupal com os seus cantos. A mata alberga mais de 70 espécies de aves, mas é nas alturas das suas árvores que o milhafre-preto, uma ave de rapina migradora estival, nidifica. A Mata tem uma das maiores colónias urbanas, se não mesmo a maior, de milhafre-preto de que se tem conhecimento na Europa, mais de 70 ninhos.

A Mata para além de contribuir para a reciclagem do ar, enquanto sumidouro de dióxido de carbono e produtora de oxigénio, representa um espaço importante para a conservação da natureza, pelas espécies de animais e plantas que aí acolhe. Permite, igualmente, um contacto directo com a natureza e contribui para a saúde e para o bem estar emocional dos seus utilizadores.

Obrigado Padre Estevão Cabral pelo legado do Choupal, hoje Mata Nacional do Choupal. A memória deste distinto engenheiro, técnico e estudioso do Mondego está perpetuada com o seu nome numa transversal à Avenida Fernão de Magalhães.

(*) Biólogo


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