As folhas do jornal soltavam-se-lhe entre os dedos numa leitura atenta e curiosa. Lia-o como se não houvesse outro, ansiando a sua chegada a cada semana. Se o rádio lhe comunicava a informação social e política do país, esse termo até então muito restrito à capital, era o jornal que lhe completava os acontecimentos da região. Nele chegavam palavras que realmente lhe interessavam, o que ocorria à sua volta e na sua cidade ali a poucas léguas. As últimas páginas ficavam-lhe para o fim, dizia que era a “parte cultural”, aquelas onde lia pontos de vista, opiniões, onde se dava consigo a ler longas prosas ou curtos versos, que o ajudaram a entender a seu modo o que era a poesia. É do desenrolar da infância, daqueles dias chuvosos de inverno e das calorentas tardes estiosas que me salta á memória aquele título nas mãos desse meu velho, “O Despertar”.
As portas fecharam-se, o carteiro deixou de vir e como quem olha um berço com saudade nunca mais ali vi chegar nenhum jornal, uma simples carta.
Mais tarde, chegado a Coimbra, essa cidade que me saudou como tão bem recebe qualquer estudante, lá voltei a ver aquele título, essa capa assídua das sextas feiras que ali viria finalmente a conhecer, tratando-nos rapidamente por “tu”. Percebi aí a importância da ligação mútua entre este projeto editorial e as comunidades, a sua presença nos vários espaços da cidade e acima de tudo nas tantas casas onde entrava.
Falar de gerações é também explicar estas coisas do destino, se ele existe, é falar da familiaridade das coisas e dos acontecimentos. Prova maior do que é geracional na imprensa entre leitores e redatores é “O Despertar”. É o alcance da memória e da herança cultural através da leitura um dos segredos da sua longevidade. Além de património da imprensa nacional é já património afetivo de muitas famílias. Quem se habitua e se sente seguro com informação de confiança, jamais deixa de ser fiel a quem o informa. Se é um jornal histórico, muito deve aos bons profissionais que lhe alinhavaram o caminho por muitos anos e aos que o mantêm vivo no século digital em que vivemos. Dirigir um caminho de dificuldades não é fácil, mas é possível. Como a vida tem momentos altos e menos bons também os projetos navegam no mesmo lema.
Foi há 107 anos, ao raiar de um mês primaveril, que viu a luz do mundo, que viu os olhos dos primeiros leitores que suplicavam o fim da guerra e mal esperavam por tantos outros acontecimentos. Chegou aos nossos dias atravessando pestes, revoluções, transformações sociais e políticas. Resistiu, e numa fervorosa persistência cruzamo-nos hoje celebrando a vida que tanto merece. Centenas de páginas, centenas de palavras, centenas de pessoas, para mais de cento e tal anos de vida. Se lhe damos os parabéns ao mesmo tempo lhe prestamos os maiores votos gratidão. Não é simplesmente informativo, mas um portador da crítica e da construção, provam-no casos e causas que levou a efeito prático e ativo.
É ele um Beirão dos sete costados, o eco das serras da Beira, mensageiro de todo o vale do Mondego, alerta da Gândara e da Bairrada, voz direta da cidade onde nasceu, seu embaixador futrica e ao mesmo tempo nobre Doutor. A identidade e a proximidade retribuem-lhe bons leitores e colaboradores, deixando neste dia o meu abraço a todos eles, extensivo à família Vinhal, ao som da guitarra de Coimbra e de um cálice de vinho fino, que “quanto mais velho melhor”, como o nosso “O Despertar”.