9 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

O bilinguismo e o desenvolvimento cognitivo, linguístico e social (II)

23 de Janeiro 2026

A língua materna constitui, por excelência, o veículo privilegiado de todas as aprendizagens, quer      ao nível oral quer na sua expressão escrita. A sua aquisição implica diferentes etapas de desenvolvimento da atividade verbal que se constrói sob a forma de enunciados cada vez mais complexos e de acordo com processos ligados aos planos psicológico, intelectual e linguístico. No caso das crianças bilingues, a aprendizagem da leitura vai exigir uma elasticidade mental que se refletirá nas suas capacidades cognitivas e linguísticas. As crianças que crescem num ambiente bilingue, têm de aprender a distinguir dois sistemas de regras linguísticas diferentes e para isso devem atender principalmente a aspetos consistentes das duas línguas; sendo obrigadas a procurar alternativas para exprimir uma ideia, um conceito ou para interpretar dados recebidos, elas adquirem uma maior maleabilidade do que a criança monolingue, em testar hipóteses de aquisição da linguagem, quer a nível lexical quer a nível de regras sintáticas. Tudo isto pressupõe um desenvolvimento cognitivo que possibilite selecionar, diferenciar e classificar para chegar ao conceito de letra e de palavra e para identificar um ou mais sons relacionados com elas. Alguns investigadores que desenvolveram estudos com crianças bilingues de 10 anos verificaram que aquelas crianças alcançaram classificações mais altas em testes de desenvolvimento intelectual do que um grupo equivalente de crianças monolingues. Assim, muitos autores concordam que a educação bilingue tem um grande impacto no desenvolvimento cognitivo e linguístico da criança.

Podemos também constatar como o bilinguismo e o ensino precoce de uma língua estrangeira, podem promover uma variedade de situações privilegiadas de interação social e de interculturalidade, conduzindo ao conhecimento de outras culturas, modos de comunicar e de pensar diferentes, tendo também grande impacto a nível do desenvolvimento cultural e social das crianças.  É assim importante o papel que uma educação bilingue pode ter na formação de uma mentalidade aberta e capaz de aceitar a diferença e de resolver problemas entre culturas e pessoas. Também, ao manipular em simultâneo, duas ou mais categorias de símbolos linguísticos e contactar com outras culturas e línguas, a criança desenvolve uma flexibilidade mental que promove o desenvolvimento, pelo menos, das capacidades de abstração, de generalização e de criatividade, tão necessárias a outras aprendizagens curriculares. Por isso, este tipo de educação é valorizado, principalmente ao nível europeu, pela consciência de que a diversidade linguística é um suporte educativo essencial, permitindo alargar os horizontes das crianças para as realidades linguísticas, sociais e culturais do mundo em que vivem, contribuindo, ao mesmo tempo, para melhorar o sucesso educativo, desde o Ensino Básico. A consciência deste facto, felizmente faz-se sentir em Portugal, onde os currículos e a legislação escolares contemplam a aprendizagem de outras línguas, para além da Língua materna, desde o 1º Ciclo do Ensino Básico.


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