Na pequena aldeia de Podentes, o Natal era quase sempre igual: luzes bonitas penduradas nas varandas, mesas fartas cheias de iguarias e conversas apressadas que se perdiam entre o barulho dos talheres. Mas, naquele ano, algo estava diferente. A neve caía silenciosa, cobrindo os telhados como um manto branco, quase como se quisesse ouvir histórias que já ninguém contava.
No quintal da casa do senhor Manuel, uma galinha chamada Gertrudes caminhava inquieta, olhando para a janela com um ar intrigado.
Dentro de casa, Augusto, um menino de 7 anos, desenhava uma árvore de Natal. Este desenho tinha um detalhe curioso porque junto da árvore estavam pessoas abraçadas em vez de presentes empilhados. Quando terminou de desenhar, Augusto levantou os olhos e, com aquela inocência que o caracterizava, perguntou:
— Avô, porque é que no Natal só se fala de coisas que se compram?
Manuel suspirou…. a verdade é que, nos últimos anos cada vez mais sentia que o Natal se tornara uma competição para ver quem tinha mais luzes, mais comida, mais tudo…. e mais nada. No meio de corridas sem sentido, ninguém reparava nos vizinhos que passavam esta quadra festiva sozinhos e ninguém se lembrava de tantas histórias de saudade que ficavam por contar…
De repente, a galinha Gertrudes entrou pela porta da cozinha, cacarejando como se quisesse dar a sua opinião. O Augusto riu-se e disse:
— Vês, avô? Até a Gertrudes quer participar na festa!
Manuel e Augusto olharam para a mesa farta que os esperava e tiveram uma ideia… pegaram numa terrina de canja, numa travessa de bacalhau com batatas e couves, em sonhos polvilhados com açúcar e prepararam um embrulho muito simples. Num papel, Augusto escreveu com letras grandes: “Para quem precisa mais do que nós.”
Saíram para a rua gelada, com a galinha Gertrudes a acompanhá-los, cacarejando como se fosse a indicar o caminho. Foram bater à porta da Ti Clara, uma mulher da cidade que vivia sozinha há demasiados anos. Quando abriu a porta e viu o avô, o menino e a galinha, a Ti Clara ficou sem palavras. Recebeu a comida, recebeu um abraço apertado e recebeu a companhia que há demasiado tempo lhe faltava.
A notícia da visita de Manuel e Augusto a casa da Ti Clara espalhou-se e, em poucas horas, vizinhos que mal se falavam começaram a sair de casa com pratos de saborosa comida, histórias para contar e sorrisos para distribuir. A praça da aldeia, que tantas vezes estava vazia, encheu-se de gente e de animação!
Augusto, com os olhos felizes, acariciou a galinha Gertrudes e disse:
— Sabes, avô … o Natal também é tempo de dar mimo.
Manuel sorriu… naquele Natal não deram presentes caros, mas distribuiram algo muito maior: humanidade. E, no meio da neve, uma galinha cacarejava feliz, como se soubesse que tinha ajudado a mudar o mundo.