11 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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Orlando Fernandes

MOMENTOS: O QUE DIZER DOS IGNORANTES

26 de Maio 2023

“Chupa-me a língua”. As palavras do Dalai Lama para o rapaz petrificado a sua frente são de quem já certamente não sabe bem o que diz. Mas não deixam de ter significado. Embora mais significado tenha sido o facto de o pedido de desculpas ao garoto e seus familiares feito em nome do líder budista e Prémio Nobel da Paz pelo se gabinete de apoio ter sido acompanhado de uma tentativa de justificação: “Sua Santidade brinca frequentemente com pessoas de uma forma e jocosa, mesmo em público e perante as câmaras fotográficas”.

Por todo o mundo, correram as imagens e a justificação de representantes do Dalai Lama acompanhadas com a história, pretensamente desculpabilizadora, de que mostrar a língua é uma forma de cumprimento que se terá tornado tradição no Tibete a partir do século IX, quando a região era governada pelo rei Lang Drama, conhecido por ter a língua preta – tratando-se de rei impopular, terá passado a ser comum o ato de mostrar a língua para provar que não tinha a mesma cor da do rei entretanto falecido e assim atestar não haver ligação sanguínea ou genética ao mal-amado monarca.

Seja como for, da língua preta do rei tibetano e do cumprimento com a língua de fora ao “chupa-me a língua” do Dalai Lama vai a distância da normalidade para a demência. Que naturalmente se lamenta, mas não se justifica.

Por isso é que não deixa de ser mais um sinal dos tempos que vivemos de profunda crise de referências e de valores o facto de a comunidade se indignar e revoltar com a demencial tirada do Dalai Lama quando o mal maior está no pedido de desculpas formulado em seu nome e procurando justifica-lo.

Há semanas, mesmo antes de ser internado num hospital de Roma com problemas respiratórios, o Papa Francisco deu uma entrevista a um órgão de comunicação argentino na qual entendeu por bem defender o Presidente do Brasil, Lula da Silva, que considerou ter sido injustamente perseguido por juízes e procuradores brasileiros e referiu-se à ex-Presidente Dilma Rousseff como “uma senhora de mãos limpas”. As imagens da entrevista passaram em todo o mundo, Portugal incluído, mas por certo por se tratar de Lula e de Dilma e por estar o Papa hospitalizado, ninguém se indignou com coisa alguma.

Se Francisco tivesse dito algo semelhante em relação a Bolsonaro ou Trump, também ninguém reagiria?

O mundo está de pernas para o ar e Portugal não foge à regra, Antes pelo contrário.

Estas primeiras décadas do terceiro milénio ameaçam ficar para a História como as mais estúpidas de sempre. É tudo um absurdo. Parece que já não há quem escape.

Veja-se agora o que nos havia de acontecer com denúncia de três investigadores da Universidade de Coimbra que envolvem em casos de assédio sexual dois reputados professores catedráticos, sendo um deles Boaventura Sousa Santos.

Tratando-se do que se trata, não poderia o país deixar de sentir-se chocado.

E, tratando-se de quem se trata, não dá para não parafrasear João Galamba: nem sei bem o que dizer.

O melhor, como conclui Cavaco Silva, é “não fazer quaisquer comentários”.

Antes de situar as declarações de Galamba e de Cavaco, apenas uma nota sobre o escândalo de Coimbra; Boaventura Sousa Santos veio a terreiro declarar que a denúncia de que é alvo é uma “difamação anónima, vergonhosa e vil”. Convenhamos: anónima, não é – há três investigadoras que a subscrevem -; vergonhosa, é – com toda a certeza! Vil, a investigação o dirá – vamos aguardar pelas conclusões.

Quando a João Galamba e à sua frase “Nem sei bem o que te hei de dizer”, tem tudo a ver com o caso da TAP paradigmático de que é a governação de António Costa e da relação de promiscuidade do PS com a Administração Pública e o setor empresarial do Estado.

A frase foi dita durante o primeiro encontro público que o ministro das Infraestruturas teve com o chairman da TAP, Manuel Beja, num contexto em que este último aproveitou para se queixar de ter sido votado ao esquecimento pelo anterior titular da pasta, Pedro Nuno Santos.

O mesmo Manuel Beja que foi à comissão de inquérito dizer que a sua demissão foi motivada por “conveniência política e partidária”.

O problema é que a sua nomeação também o foi. Como são quase todas com este PS, Até aquelas que não são publicadas em Diário da República, a ver se passam.

Já quanto o ex-Presidente Cavaco Silva, lembrando que há semanas alertara “que a política portuguesa estava perigosa”, veio agora constatar que, “ de então para cá, deteriorou-se muito”, e por isso, entende não dever fazer “quaisquer comentários”.

Não precisa, porque disse tudo.

Só não ouve quem não quer.

Enquanto isso, comem-nos a carne e chupam-nos os ossos. E não há quem lhes ponha a língua de fora. A não ser o mesmo de sempre, mas logo deixando claro que é só por brincadeira, ainda que nada inocente e jocosa.

 

Orlando Fernandes


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