28 de Setembro de 2020 | Coimbra
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JOÃO PINHO

Miguel Oliveira: em nome da História

4 de Setembro 2020

Quando Miguel Oliveira conseguiu a primeira vitória no moto GP recordei-me, imediatamente, do desastre português na batalha de Alcácer Quibir, em outro agosto, o de 1578. Embora 422 anos separem dois acontecimentos históricos muitíssimo diferentes – o primeiro extremamente negativo, o segundo poderosamente positivo, com evolução em contextos sociais, políticos e ideológicos completamente diferentes – a verdade é que vislumbro uma linha de continuidade entre tais momentos.

Existe entre alguns estudiosos a convicção – quase tese – que o desastre em Marrocos foi de tal forma marcante na nossa História que a nação nunca mais se recompôs de tão grande perda. Na verdade, o impacto foi desastroso: pereceu grande parte da nobreza e do clero, incluindo D. Sebastião (fazendo nascer o mito do Sebastianismo que dura até hoje); iniciou-se o fim da Dinastia de Avis e, dois anos mais tarde – frágeis em termos governativos – perderíamos a independência por 60 anos, com a União Ibérica sob a dinastia Filipina.

Segundo estes teóricos da desgraça, os sucessivos desastres de Portugal ao longo dos tempos pós Alcácer Quibir – os desmandos, os insucessos, os problemas sociais e políticos, a inexistência de líderes, de gente capaz para governar e tantos outros males – foram, feitas todas as contas, uma consequência do sangue derramado da geração que se perdeu na cruzada em África.

Abomino de todo esta teoria do sangue azul. Não! Portugal foi, é e será muito mais do que a geração perdida em Quinhentos. Bastaria recordar vultos recentes como Eça de Queirós, Almeida Garret, João de Deus, Fernando Pessoa, Egas Moniz, Amália, Natália Correia, Sophia de Melo Breyner, Humberto Delgado, Torga, Saramago, António Damásio, Paulo Gonçalves, Ronaldo, e, claro está, Miguel Oliveira.

Creio, na verdade, que tal teoria é um insulto aos portugueses que têm construído o Portugal contemporâneo. O país tem produzido gente de grande calibre, se considerarmos a sua escala. Só temos de valorizar o que é nosso e de qualidade!

Por isso apreciei tanto aquele desempenho final do Miguel Oliveira quando, num golpe de coragem e destreza, ultrapassou, numa curva apertada, os seus competidores diretos, dobrando, qual Bartolomeu Dias, o Cabo das Tormentas, rebatizando-o de Cabo da Boa Esperança de todos os portugueses.


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