9 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

MEMÓRIAS INCOMPLETAS

17 de Abril 2025

Quase todas as terras construíram ao longo dos séculos lugares amplos e centrais. Sítios multiusos poder – se – iam chamar hoje. Pois o sítio da minha aldeia, era espaçoso, bem direito, o que permitiria a realização de várias actividades e a construção de edificados comunitários. Foi designado de Lameira.

Tinha a escola por perto, logo serviria para o recreio das crianças. A fonte de mergulho estava logo ali ao lado; o cemitério também estava perto; a ribeira de água límpida que vinda da Velosa caminhava para o Mondego, fazia-lhe fronteira.

A Lameira era cruzamento de caminhos para os Açores, Velosa e para o lugar da Quintã; na encruzilhada desses caminhos estava um cruzeiro protector. Ali se realizavam os grandes convívios da terra, como os «bailos» ao som do «acordeon», os jogos da «pela» e do pau, e se cozia o pão no forno comunitário.

Era também saída para o centro da aldeia, para a bonita igreja românica e para o Porto da Carne, onde se podia apanhar a ronceira camioneta do Paraíso a caminho da cidade da Guarda. Hoje, seguindo os mesmos preceitos memoriais, aí se construiu uma nova igreja e um pequeno centro de recreio e reuniões comunitárias.

Mas, o mais relevante eram as árvores centenárias: os belos plátanos. Árvores enormes, centenárias, que davam conforto ao espaço no Verão, com a sua sombra fresca, e, no Inverno, com o recolhimento que ofereciam quando muito chovia.

Estas árvores magníficas, apelidava-as o povo de «boleiras». E eu também.

 

António Bagão Félix, escreveu um livro magnífico, designado Quarenta Árvores. Entre estas quarenta árvores aí está retratado o Plátano, em discurso directo.

 

O autor classifica o Plátano como árvore forte, vigorosa, alta, imponente e com um longo tempo de vida. Há quem lhe chame árvore rainha, tem um passado longínquo, viveu nalguns sítios ao lado de dinossauros, há fósseis de antepassados com 115 milhões de anos e é citado no Antigo Testamento, no livro Génesis. Tudo isto assegura Bagão Félix.

Cresce depressa, exuberantemente, sobretudo em terrenos húmidos e profundos, chegam a atingir diâmetros de 20 metros, estendendo uma larga sombra.

As folhas de que se cobrem, principalmente na Primavera, têm uma forma muito aproximadamente, a uma palma da mão e seus dedos. Com o advento do Outono revestem-se de um leque de cores, de amarelo claro ao castanho, por vezes, avermelhado. Foi atendendo ao tamanho enorme das folhas que lhe chamaram Plátano. Enquanto jovem, apanhava e secava as folhas; depois serviam-me de serra – livros.

Já quanto às flores e frutos, no mesmo indivíduo, habitam flores masculinas e femininas; formam frutos pardacentos e globosos envoltos num sistema de pelos rígidos. Ora aqui está a razão de apelidarem os Plátanos de «boleiras».

Da sua madeira, há quem diga que foi feito o Cavalo de Tróia.

O filósofo Sócrates dissertou sobre a sua ampla silhueta. Losa escreveu um encantador livrinho infantil chamado Beatriz e o Plátano.

Também o poeta e ensaísta Jorge de Sena lhe dirigiu uma Ode.


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