Através do meu postigo vi um melro preto e ouvi o seu canto aflautado, melodioso, e, a sua vigilância, simbolizada por um distinto grito de alarme.
Algumas fontes aludem que, ao contrário de outras criaturas negras, esta espécie não é usualmente caracterizada como um emblema de má sorte. O canto melodioso da ave, antes pelo contrário, é um símbolo de paz e de ajuda. O melro preto, dada a sua proximidade ao homem, está inscrito em ditados populares portugueses, tais como: “Cada tiro, cada melro.”;“Água ao melro que lhe seca o bico.”; “Cantam os melros, calam-se os pardais.”; “Melro que pia, o poiso denuncia.”; “Melro que bem assobia, muita minhoca já engoliu.”; “Quando o melro canta em Janeiro, é tempo de sequeiro o ano inteiro.”; “Melro de bico amarelo, come a semente e o farelo.”; etc.
O melro preto é um dos meus pássaros aliados, e com eles aprendo muito. A história que vou contar, é real, e só os enobrecesse.
Como já acima referi, espreito pela fresta do meu quarto. E o que vejo eu?
Um melro negro, com uma palha no bico, poisado num poste de electricidade. Olha para um lado e para o outro; certifica-se de que não há inimigos por perto. E, logo após, voa num ápice para uma árvore frondosa e situada bem perto.
Observei este ritual muitas vezes; apreciei o labor deste bicho, acarretando os materiais para fazer o ninho, onde vai dar à luz e criar os seus «melrinhos» Fico espantado com a persistência desta ave; palha a palha, constrói o seu lugar de geração.
Este exemplo, leva-me a pensar: -“se o melro preto consegue os seus desígnios, eu também vou sair deste lugar embaraçoso, onde tenho permanecido tantos dias.”
– “Que bom exemplo me deu este melro preto!…Obrigado amigo, vou ser perseverante, tal como tu. Vou ganhar a batalha, tal como tu. Depois, se conseguir sair do postigo e encontrar a liberdade, agradecer-te-ei.”
O coração experimenta e o olho vê e conta.