Há cerca de uma semana fui surpreendido com uma narrativa da autoria de Fernando Correia Correia, publicada pelo RádioOsLatinos 33, com o introito: Condenada à morte pela Gestapo, e não resisti a percorrer o seu conteúdo, donde ressaltou o nome de Salazar, tão elevado por uns e rebaixado e perseguido por outros. O mundo é assim mesmo!. A harmonia e o consenso perfeitos não cabem na mentalidade humana!.
Ali se lê que foi salva por Salazar e esquecida pela história. ”Morreu aos 100 anos, depois de ter recebido a Ordem do Mérito de Portugal. Esta é a princesa que trocou os salões pela resistência antialemã, atuando como enfermeira e assistente social em socorro às vítimas de bombardeios em Viena de Áustria. Foi perseguida pela Gestapo, capturada e…, a sua vida foi poupada apenas pela intervenção do então Presidente do Concelho de Ministros, A.O.S, que alegou a sua condição de cidadã portuguesa. Desembarcou, finalmente, em Portugal, em 1949. Foi assistente social em prol dos mais desfavorecidos e criou a Fundação D. Nun´Alvares Pereira.
Depois de várias exaltações à figura de Salazar, através de várias respostas, reproduzidas pelo mesmo Rádio 33, tais como, “Já conhecia a história – obrigada de me relembrar, em trazer ao conhecimento dos portugueses figuras heroicas esquecidas ou ignoradas por um sistema político de esquerda, que destruiu e adulterou a nossa história e cultura. Repôs a Verdade onde a Mentira tanto mal tem feito à nossa sociedade (Resposta de Adriana Almeida)”. “E quem não acha que Salazar não tinha poder, e que não era humano?” (Resposta de Óscar José Oliveira).
Mas, “como Deus, que é Deus, não agrada a todos”, logo veio, em jeito de remoque, outra resposta: “Salazar salvou a senhora por ser princesa portuguesa. Não vamos branquear o ditador. Todos os monstros da humanidade têm pequenas histórias boas…não podemos esquecer por exemplo o comportamento de Salazar em relação ao santo Cônsul de Portugal em Bordeaux, Aristides de Sousa Mendes, que salvou milhares de judeus das garras do Hitler, amigo de Salazar. Tão amigos que eram que Salazar impôs aos portugueses, a Portugal três dias de luto por morte de Hitler. A princesa não gostaria de saber que a sua história sirva para branquear um ditador do calibre de Salazar (de Senseizen Ange)”.
Admitimos que o subescritor desta resposta estivesse desatento, ou não se tivesse envolvido, que baste, no âmago da história de Portugal, para formular a sua opinião, relativamente ao Sr. Cônsul, Aristides de Sousa Mendes, a quem, sem rebuço, devemos exaltar pela sua coragem e grandiosa ação humanista, que valoriza o homem como valor supremo, mas absolutamente à margem do seu compromisso político, outra coisa foi, temos de convir, aquele seu comportamento, enquanto institucional, hierarquicamente subordinado ao poder político-executivo, ter postergado a razão mais forte da sua missão profissional, cuja razão de fundo foi a sua grave insubordinação ostensiva e denunciada ao regime, numa altura em que Salazar tentava manter a neutralidade e o controlo absoluto sobre a política de refugiados e imigração.
É que com a invasão da França pela Alemanha Nazi, em 1940, Salazar emitiu a Circular 14, uma diretiva que proibia os diplomatas de conceder vistos a estrangeiros de nacionalidade indefinida, apátridas e judeus sem autorização prévia de Lisboa. Aquele Sr. Cônsul ignorou deliberadamente essas ordens e emitiu muitos milhares de vistos, indiscriminadamente, permitindo que os refugiados escapassem ao Holocausto. Para Salazar, a ação daquele Cônsul representava uma ameaça à soberania do Estado – a desobediência direta às suas ordenes feria “o princípio da autoridade do Estado Novo”; e era um risco para a política de neutralidade. Salazar temia que a entrada descontrolada de refugiados pudesse comprometer a posição de Portugal na II Guerra Mundial e provocar a retaliação das potências do Eixo.
Não devemos esquecer que Salazar usou de uma diplomacia incomum para acalmar Hitler, que estava na disposição de invadir Portugal, ao interroga-lo porque facultou o aeroporto das Lages aos EUA?, (adversários do nazista), ao que Salazar respondeu com toda a cordialidade e convicção de que era para contrabalançar com o fornecimento de volfrâmio/tungsténio à Alemanha, indispensável para produzir material de guerra, e do qual Hitler não prescindia, incondicionalmente.
Esta congénita arte da diplomacia de Salazar livrou Portugal da guerra, feito inaudito que gerou nas mulheres portuguesas um movimento de gratidão, com uma grandiosa manifestação, não só por isso, mas também por ter livrado os seus filhos da guerra, e que a imprensa de então definiu politicamente Portugal como um regime autoritário dentro da sobriedade, sem o pragmático nazi nem os aspetos concentracionários do militarismo imperialista de Mussolini, pondo termo ao fascismo agressivo.
E, nesse contexto, o jornal “Time” afirmou, em março de 1935, que “é impossível negar que o desenvolvimento económico record registado em Portugal não só não tem paralelo em qualquer outra parte do mundo como também é um feito para o qual a história não tem muitos precedentes”. Franco, por seu turno, numa entrevista ao jornal francês “Le Fígaro”, de 13/1/1958, asseverou que “Se o senhor me perguntar qual é o homem de Estado mais completo, mais respeitável de entre todos os que conheci, eu dir-lhe-ei Salazar”. E alguém acrescentou: “eis aqui um personagem extraordinário, pela sua inteligência, o sentido político, a humanidade. O seu único defeito foi talvez a sua modéstia”.
Aqui poderá estar, talvez, a resposta aos obnóxios anarcossindicalistas assassinos, aos republicanos radicais e aos comunistas, de então, que lhe perpetraram um atentado, em 4/7/1937, e que sempre têm desvalorizado a sua incomparável honestidade e rigor financeiro, até porque se outro exemplo não houvesse bastava sublinhar que, quando faleceu (em julho de 1970), deixou nos cofres do Estado 866 toneladas de ouro, colocando Portugal no 8º lugar do ranking mundial. Contudo, para sina nossa, depois do 25 de Abril, o B.de P. registava 383 toneladas (866 – 383), o que se traduz numa delapidação de 483 toneladas.
Entre os anti-, os neutros e os pró salazaristas, haverá um amplo intervalo de opção para quem se der ao cuidado de formular a sua legítima opinião…!