Ao passarmos pela Rua da Gala, mesmo ao lado da Loja do Cidadão, em Coimbra, damos conta da porta número 12 que facilmente nos transporta entre os anos 1960 e 2000.
Discos de vinil, cassetes, CDs, cartuchos fazem parte da montra da loja Discoteca Eselindo, que está em funcionamento desde 1979, sendo um negócio de família que está hoje nas mãos de Carlos Rosa.
A loja sempre vendeu apenas este tipo de artigos musicais, mas com o avanço das tecnologias foi obrigada a modernizar-se e a fazer-se frente aos tempos. “Sempre se vendeu só artigos musicais, como o vinil, cassetes, cartuchos, mas depois veio a era do CD e modernizámos-mos para o CD, entretanto veio o DVD”, referiu, destacando que a procura por estes produtos, principalmente os discos de vinil e os singles, é cada vez mais nos dias que correm e está a voltar àquilo que era antigamente. Carlos Rosa lembra ainda que antigamente a loja tinha quatro funcionários e tinha muito movimento. “Era impressionante”.
Hoje, a Discoteca Eselindo tem novos serviços, porque assim as circunstâncias, também dos tempos, obrigaram.
“Entretanto atualizei-me porque como estamos perto da Loja do Cidadão tenho de ter serviços a prestar a esse espaço, tais como fotocópias, digitalizações, impressões e tudo o que é de documentos, o que é uma mais valia. Tenho também o serviço ‘Paga Aqui’, que é um pagamento de faturas, sejam elas ao estado, da água, luz, gás, internet, carregamentos de telemóveis, entre outras”, disse o proprietário.
Com estes serviços, os seus principais clientes acabam por ser pessoas de mais idade porque, segundo Carlos Rosa, “não são tão adaptáveis às coisas modernas”.
Reconhece que o negócio corre bem, apesar de todas as dificuldades. “Temos sempre muita procura. Não quer dizer que chego ao final do dia com uma caixa boa, mas os clientes vão entrando e acabo por ir vendendo. Eu vendo as cópias baratas e as cobranças também dão uma insignificância e tudo junto vai dando para ir pagando as nossas contas”, sublinhou.
Imigrantes são “um balão de ar fresco”
Com espaço próprio, através da herança deixada pelos pais, Carlos Rosa não tem a preocupação em pagar o aluguer do espaço, tendo apenas como preocupações as despesas inerentes à loja, o que lhe facilita muito a gestão financeira. “Se não fosse assim, o que ganho aqui não chegava”, ressalva.
Admite que a Loja do Cidadão é também um fator determinante para a sua sobrevivência. “Se não fosse a Loja do Cidadão eu também ficava a tremelicar porque ela dá-me muitos clientes”.
Contudo, o maior lucro que recebe vem precisamente dos estrangeiros que se instalam no nosso país, mais precisamente na cidade de Coimbra. “Agora o que também me dá algum folgo é a quantidade de estrangeiros que vêm para Portugal, porque estão sempre à procura de papéis de legalização, cópias dos currículos para entregar, e é isso que é o meu balão de ar fresco. Os portugueses já não tiram tantas cópias quanto isso”.
Baixa já não é o que era
Para Carlos Rosa, a Baixa de Coimbra já não é o que era antigamente. “A Baixa de Coimbra de há 20 anos para cá, para aí 60% das lojas fecharam e as pessoas deixaram de vir porque já não encontram o que querem e os que cá ficam é que sofrem essa consequência”, começou por dizer.
Relembra que antes as ruas estavam completas com as lojas todas abertas e não faltava nada ao cliente. “Antes tínhamos uma rua que se chamava a Rua dos Sapateiros e numa extensão de 70 metros tínhamos umas 12 ou 13 lojas de sapatos, agora só tem uma”, contou.
“Nós podíamos ter produtos específicos que antigamente tínhamos, por exemplo uma loja de ferragem em condições. Aqui na Baixa antigamente havia uma e agora já não há, as pessoas procuram uma coisa específica e agora já não encontram”.
Para o comerciante, a Baixa atravessa um período complicado que tem prejudicado o negócio. Com várias lojas encerradas, as ruas deixam de ter movimento e as pessoas deixam de encontrar opções de compra.
“Estas ruas interiores tem muita loja fechada e assim as pessoas também não procuram, não há incentivo para elas virem porque se tivéssemos as lojas abertas com produtos que os centros comerciais não têm nós aqui tínhamos essa vantagem”, salientou.
Na opinião de Carlos Rosa, a causa do encerramento das lojas deve-se às altas rendas, a que os senhorios não querem abdicar de baixar os valores.
A falta de segurança é também um dos problemas que está a afastar as pessoas do centro histórico da cidade de Coimbra. “Depois das 19h00 o género de pessoas que anda a circular nas ruas já é diferente das pessoas que andam no horário comercial, temos o problema da droga e as coisas ficam mais perigosas”, afirmou.
A juntar a todas estas dificuldades, o problema do estacionamento na Baixa é uma questão partilhada pelos vários comerciantes, inclusive Carlos Rosa. “As pessoas quando vêm cá sentem dificuldades no estacionamento, nós não temos estacionamento em quantidade e o que há é a pagar. As pessoas tendo estacionamento de borla no centro comercial não vêm para cá a pagar. A Câmara Municipal devia tentar chamar as pessoas através de um espaço com um valor mais simbólico e um estacionamento com segurança e em condições”.