A apresentação do último livro do cirurgião cardio-torácico Professor Manuel Antunes, decorrida na semana passada num dos auditórios dos
Hospitais da Universidade de Coimbra, foi uma sessão feliz e muito participada. “Uma vida com o coração nas
mãos”, assim se chama a obra, descreve algumas das fases da vida pessoal e profissional de Manuel Antunes, porventura
aquelas que mais marcaram a sua vida. Natural da zona de Leiria, freguesia da Memória, seria na então Lourenço Marques que se fez
médico, dali se transferindo anos depois para África do Sul, para fazer o seu doutoramento e especializando-se na cirurgia cardíaca a que
dedicou toda a sua vida, especialmente depois de ter sido “puxado” para Coimbra por algumas proeminentes figuras médicas que aqui desempenhavam as suas funções ( Ramos Lopes, Bártolo do Vale Pereira e Norberto Canha) que a certa altura se aperceberam que esta especialidade precisava de um especialista experimentado, provas dadas e capacidade de reverter a situação da altura, com resultados
assumidamente maus.
Mais ainda, porque o novo Hospital (o actual) estava a dar os primeiros passos e, conhecendo todos o êxito que Manuel Antunes estava a ter na África do Sul, entenderam que ninguém melhor do que ele reuniria as condições para reverter a situação. Aqui chegado, iniciou uma obra notável, criando um Serviço novo de Cirurgia Cardio-Torácica com autonomia médica (formando equipa própria), autonomia de gestão e financeira que durante muitos anos conduziu ao desenvolvimento da especialidade, garantindo-lhe a eficácia e qualidade de sucesso que garantiram ao Departamento a capacidade cirúrgica que mais produzia – e com sucesso – fosse no país no seu todo, fosse mesmo a nível da Península Ibérica. Jubilado ao atingir os 70 anos, Manuel Antunes coordena hoje o sector de Cardiologia no Hospital da Cuf, cá em Coimbra, e preside à Cáritas de Coimbra, instituição que casa bem com a sensibilidade social deste cirurgião.
Parte deste trajecto está descrito a obra apresentada, perante mais de uma centena de pessoas, em parte antigos colegas, alunos e grande
parte da sua equipa que formou e o acompanhou durante muitos anos. Mas se da obra se falou – a apresentação esteve a cargo do Professor
Nascimento Costa que foi de uma elegância extrema a citar da obra o que de mais marcante contém -, do autor muito mais se falou ainda.
Fizeram-no o novo presidente do Hospital, Alexandre Lourenço, Robalo Cordeiro, Director da Faculdade de Medicina, todos eles irmanados no propósito de homenagear o homem, o médico – cirurgião e o Professor que deixou no Hospital de Coimbra uma marca indelével, testemunhada pelas mais de 35000 intervenções em que, de forma mais ou menos activa, interveio. Durante muitos e muitos anos, Manuel Antunes será a mais marcante referência de cirurgia cardio-torácica em Portugal, a par de vulto enorme que também foi em generosidade, dada a sua preocupação em manter o mais reduzida possível a lista de espera para intervenções da especialidade. Lista zero era o seu propósito diário e muitas vezes o conseguiu.
Recorde-se, até pela sua invulgaridade, que duas semanas antes outro grande cirurgião e Professor de Coimbra, Linhares Furtado, havia apresentado também o seu último livro, com idêntico propósito e finalidade: deixar testemunho autêntico de feitos médicos e cirúrgicos que ninguém havia realizado até então, neste caso a nível da transplantação do rim, do intestino e outros órgãos de cavidade abdominal
do corpo humano.
Assim não será, porque a gratidão dos homens e a sua memória se fazem curtas em pouco tempo: mas se Linhares Furtado e Manuel Antunes tiverem um dia o seu busto, um de cada lado, na entrada principal do Hospital da Universidade de Coimbra, não haverá uma única mente séria que ponha em causa o mérito da iniciativa. Ali ou noutro local qualquer que tenha dignidade apropriada para os receber.