14 de Março de 2026 | Coimbra
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VASCO FRANCISCO

Lição primaveril

1 de Abril 2022

A primavera chegou com uns toques de inverno, como num disfarce que se repete em equinócios e solstícios cada vez mais atípicos. A primazia das plantas repete-se num abrolhamento que entre dias nublados e frouxos parece inseguro, mas é hora, não há nada que impeça o romper dos primeiros tecidos vegetais, o lançamento cromático de toda uma paleta de flores que pintam os matagais de amarelos e brancos e os pomares das cores mais singelas e diversas que possam existir. Virão os dias límpidos, esses em que os grilos cantarão juntando-se à orquestra dos dias grandes, em que os ninhos se constroem à preferência dos diversos seres alados que em simbiose natural comungam no mesmo ambiente que o ser humano por vezes despreza.

Festeja-se a natureza no seu maior esplendor. Dedica-se um dia à árvore, à água, à poesia, ao pai, à mãe, quando todos os dias são a poesia real de todos estes elementos. Nos seus devidos lugares todos eles com uma importância suprema, numa cadeia de ligação que nem todos conseguem entender. Todos os dias, são dias para amar, para valorizar quem te valoriza, para agradecer, para preservar o que te faz feliz, as coisas mais simples principalmente.

A bucólica dos dias é cada vez mais rara, não por falha da natureza, mas pelo desequilíbrio do Homem. Esse bucolismo dos momentos e dos lugares é tão mais forte ou inútil consoante a intensidade de quem assiste ou participa nesse mesmo quadro, seja nos dias radiantes primaveris ou debaixo de uma feroz tempestade. Entre tudo, é certo que a realidade de quem constrói essa paisagem e de quem arduamente a esculpiu noutros tempos é uma realidade dura onde só é possível ver a beleza depois do trabalho feito.

Com o gracioso avanço da tecnologia e da sociedade, esse lirismo pitoresco está hoje quase extinto, ou já não existe mesmo, persistindo essencialmente nos meios rurais do Norte e Centro, nas faixas mais distantes de um Litoral cada vez mais transformado e exaustivo.

Hoje, é o “dia dos enganos” e se há tempo para uma partida há o desejo de que todas as verdadeiras crueldades do mundo fossem mentira. A paz voltaria a ser real, a ganância e as invejas não destruíam os pequenos mundos. A desigualdade seria um problema ultrapassado, num globo onde tantos apontamentos conseguem diferenciar e mudar o ego e a essência das pessoas. A evolução e o acesso dos tempos levaram a construir uma sociedade melhor, no entanto continua a ser o caminho para a destruição de valores tão simples e tão importantes. Existirá sempre uma sociedade heterogénea e ainda bem que assim o é, no entanto é importante que as pessoas se valorizem e se meçam por pessoas e não pelas posses, pelos bens, pelos estatutos. Algo que é já impossível de mudar, no entanto o ser humano faz-se do que é como pessoa, tudo o resto são qualidades e virtudes que devem ser respeitadas e aceites para cooperar e fazer girar o mundo. Será isto verdade ou mentira?


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