Há mais de 20 anos que, todas as semanas, os leitores do Jornal O Despertar encontram um olhar diferente sobre a atualidade: um desenho que comenta, questiona, provoca e, muitas vezes, faz sorrir. O autor é Joaquim Belisário Borges, cartoonista autodidata que fez do humor uma forma de intervenção cívica e cultural. Num momento em que o Jornal celebra 109 anos de existência, o seu trabalho ganha ainda maior significado, não apenas como espaço de criação artística, mas como parte integrante da identidade de um dos mais antigos semanários regionais do país.
Ao longo destas últimas duas décadas, o seu traço tornou-se presença habitual e reconhecida. O cartoon passou a ser não apenas um complemento gráfico, mas uma marca distintiva do jornal, acompanhando a evolução da cidade, do concelho e do país.
Um convite que nasceu da amizade
A ligação de Joaquim Belisário Borges ao O Despertar não surgiu por acaso. Foi o resultado de uma amizade antiga com Fausto Correia, antigo proprietário do Jornal e figura marcante da vida política e cívica de Coimbra, a quem o cartoonista se refere com carinho e admiração. Amigos desde os tempos do liceu, partilharam juventude, debates e o ambiente intenso das décadas de 60 e 70.
“Ele dizia-me muitas vezes que gostaria muito que eu fizesse um boneco específico para o Jornal mais antigo de Coimbra”, recorda Joaquim Borges. O convite repetiu-se ao longo dos anos, mas a vida profissional não permitia espaço para essa dedicação. Enquanto delegado de informação médica, tinha uma atividade exigente, com deslocações frequentes e grande responsabilidade. “Eu realmente não tinha capacidade, nem cabeça, nem ânimo humorístico para desenvolver esta atividade”, confessa.
O gosto pelo desenho, contudo, nunca desapareceu. Desde os 15 anos que fazia cartoons, experimentou o carvão e colaborou com várias publicações. Aapesar da interrupção motivada pela vida profissional, o “bichinho” do cartoon nunca o abandonou.
Anos depois, já com os filhos formados e uma vida mais estabilizada, Fausto Correia voltou ao assunto. “Um dia voltou-me a dizer: ‘agora que estás mais liberto, não te esqueças do meu pedido. Tens de fabricar um boneco exclusivo para o nosso jornal.’” Joaquim Borges hesitou, consciente da distância que o separava do desenho regular. “Eu disse-lhe que já não fazia nada de jeito há muitos anos. E ele respondeu-me: ‘Se retomares, depressa encontras o teu jeito.’” Foi o impulso decisivo. E assim nasceu uma colaboração que dura até hoje.
O Chico Melenas e a identidade do jornal
Com o regresso ao desenho, surgiu também a necessidade de criar uma personagem que representasse essa presença semanal. Assim nasceu o Chico Melenas, figura que rapidamente se tornou símbolo do espaço de humor do Despertar.
“O Chico é um nome muito vulgar, próximo de toda a gente. E as melenas eram os cabelos compridos do meu tempo de juventude, o tempo dos Beatles”, explica, sorrindo. A referência não é inocente. Nos anos 60 usar cabelo comprido era um gesto de afirmação, recorda.
Ao longo dos anos, a personagem foi evoluindo. O traço tornou-se mais seguro, as expressões mais trabalhadas, os cenários mais detalhados.
O Chico Melenas comenta a atualidade local, mas não se limita a Coimbra. Joaquim Borges procura sempre que possível alargar o olhar à realidade nacional e internacional.
O desafio do humor em tempos difíceis
Para Joaquim Borges, fazer humor é uma tarefa exigente e, por vezes, delicada. “É um dos maiores problemas do cartunista atualmente”, admite. A linha que separa a crítica da ofensa pode ser ténue, e o equilíbrio é fundamental.
“A graça deve sobrepor-se à própria crítica”, explica. O objetivo nunca é humilhar ou atacar, mas provocar reflexão através do riso. No entanto, quando os temas envolvem figuras históricas ou acontecimentos sensíveis, o cuidado é redobrado.
Num mundo marcado por guerras, tensões políticas e crises sociais, o desafio é ainda maior. “Fazer graça com a tristeza é muito difícil”, reconhece. “Às vezes os cartoons choram.”
A atualidade internacional, com conflitos armados e lideranças polémicas, é terreno difícil para o humor. “O cartunismo é o desenho do humor. Mas há momentos em que a realidade pesa tanto que é complicado extrair dela algo que faça rir.” Ainda assim, insiste em não abdicar do olhar crítico. Para ele, o cartoon é também uma forma de cidadania.
O valor do cartoon num jornal centenário
Num jornal com 109 anos de história, o cartoon assume uma função que vai além do entretenimento. É comentário social, é memória coletiva, é registo histórico.
“Daqui a muitos anos, os cartoons vão mostrar como evoluíram as sociedades”, afirma. “Quer no plano político, quer no plano cultural, quer no plano social.”
O Despertar, enquanto semanário regional, tem uma missão muito própria. Dá voz às freguesias, às associações, às iniciativas locais. Para o cartoonista, essa proximidade é um dos grandes méritos do jornal. “Num tempo em que muitos meios de comunicação enfrentam dificuldades, manter um semanário regional ativo durante mais de um século é, por si só, um feito notável. E o cartoon, publicado semanalmente, integra essa continuidade”, sublinha.
“Eu nunca falhei um único número desde que comecei”, afirma com orgulho. “É um ponto de honra. Só quando não puder mesmo é que pararei.”
Enquanto houver espaço para o humor nas páginas d’O Despertar, continuará também a haver espaço para o traço de Joaquim Belisário Borges. Um traço que, semana após semana, ajuda a contar a história de uma cidade e de um jornal que se recusa a deixar de despertar.
Cristiana Dias
»» [Reportagem da edição impressa no “O Despertar” de 27/02/2026]