A Clarinha-Turista, de passeio por uma das suas cidades, entrou numa bonita igreja onde já não entrava há (demasiados) anos. Surpreendeu-se ao ver um senhor dentro de uma mini-casa e surpreendeu-se ainda mais quando, ao passar à sua frente, escutou: “Faz favor!”.
Seguiu-se este inacreditável diálogo:
– Vou entrar um minuto para rezar, disse a Clarinha-Turista, surpreendida por ter sido abordada.
– Tem de pagar, exclamou o senhor com uma cara de poucos amigos.
– Vou rezar, repetiu a Clarinha-Turista com receio de não ter sido compreendida.
– Tem de pagar, repetiu o senhor num tom aproximado do desagradável.
– Vou apenas rezar, insistiu a Clarinha-Turista a caminho da irritação.
– Isto é um monumento nacional e tem de pagar, exclamou aquele ser (des)humano que a Clarinha-Turista tinha à sua frente.
– Tenho de pagar para rezar?!, pergunta a Clarinha-Turista ao mesmo tempo que pensa … “quanto custará um Pai Nosso por alma do Pai Augusto e dos Avós?!”.
– Esta igreja não é sua e se entrasse num museu também pagava, rematou aquele senhor.
Chegámos ao momento em que a Clarinha-Turista tinha uma “nuvem muito carregada em cima da cabeça”. Tinha duas hipóteses: “passar-se dos carretos” e dizer aquele senhor umas coisitas que estava a precisar de ouvir ou dar meia-volta, sair da igreja e celebrar ter assunto para mais um textinho.
A Clarinha-Turista, recordando a educação que recebeu, optou pela segunda hipótese, mas antes de sair da igreja ainda lançou uma bola ao cesto:
– Pois, mas eu entrei numa igreja e não num museu!
Na rua, a Clarinha-Turista não conseguiu evitar pensar: “morrer de êxito é uma das mais tristes formas de uma cidade morrer”.
Irritações…