Já o afirmei várias vezes: não sou poeta não. Tento almejar os poetas. No entanto, há um interesse que tenho quando escrevo: o sentimento de poeta.
Compus, então, nesta contextura, este poema que mais abaixo apresento, sobre Inês de Castro. Nele se respigam coisas da lenda, do mito e da realidade, e dá-se conta das artes que têm vindo a representá-la. Da literatura ao teatro, do canto aos trovadores, do teatro à opera, dos pintores.
Dedico-o a Cristina Castel-Branco, autora do livro A Água das Lágrimas, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Esta arquitecta paisagista, conta-nos a história da Quinta das Lágrimas. Todos os ambientes principais se encontram retratados neste livro e todos se conjugam, desde a intervenção da Rainha Isabel (a água da Rainha, o cano da Rainha, o Paço da Rainha), até aos amores fatídicos de Pedro e Inês. A Cristina fala-nos dos românticos jardins, das fontes, dos canais, dos lagos, da mata, das olaias e das sequóias, De tantas, tantas outras coisas
Diz-nos, também, das pessoas, as figuras que tudo construíram e zelaram. Também do recente anfiteatro e do festival das artes que dá fundamento ao que escrevo.
Livro bonito, é o termo próprio da minha apreciação. Linguagem escorreita e feito de uma forma apaixonada.
Esta semana decorreram eventos ligados ao local e às memórias que ele simboliza.
Relevo para a Fundação Inês de Castro e para o Conselho de Administração do Hotel Quinta das Lágrimas – ambos preservam e investigam memórias de uma das narrativas mais apaixonadas para as gerações portuguesas. Passadas e presentes. Acredito eu, que será também das futuras.
Castro
Castro mito,
Castro rito.
Castro arte,
N’um Mundo à parte.
Castro prosa,
Castro formosa.
Castro sedução,
N’um palco d’imaginação.
Castro poema,
Castro problema.
Castro nobreza,
N’um País de pobreza.
Castro paixão,
Castro devoção.
Castro Castela,
N’um túmulo só dela.
Castro tragédia,
Castro comédia.
Castro história,
N’uma corte de vã glória.
Castro Pedro,
Castro segredo.
Castro morta,
Pedro revolta.
Castro sepultada,
Castro desenterrada.
Castro princesa,
Do povo e da nobreza.
Castro demónio,
Castro purgatório.
Castro dos trovadores,
E dos cantores.
Castro apesar de morta,
Castro ainda importa.
Castro imaginário,
Do português lendário.
Castro palco,
Castro desiderato.
Castro escrita,
Castro actor de revista.
Castro mãe,
Dos bastardos do Rei.
Castro ópera,
De hoje e d’outrora.
INÊS DE CASTRO,
Ainda és Castro.
Senhora minha,
Depois de morta foste RAINHA!…