23 de Outubro de 2026 | Coimbra
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António Inácio Nogueira

Habituámo-nos a eles, quase objectos

23 de Outubro 2026

(prosa-verso)

 

Da minha varanda vejo-o chegar, quase todos os dias, por volta das 20 horas.

Sobe a ladeira encostado à farmácia que aí existe, localizada no prédio onde vai dormir.

É um homem com vestimenta andrajosa, cabelo desgrenhado, barbas compridas. Pressinto que tenha sido uma boa figura. Alquebrado pela subida, o seu rosto é triste. Como breu.

Aporta a uma ladeira do prédio que dá acesso a algumas garagens.

Chegado ao local, olha em volta, e vai buscar a um esconderijo um cobertor, uma almofada e pedaços de cartão que o abrigam do frio. É esta a sua casa.

Depois, e ajudado pelos candeeiros da rua, começa a esgaravatar os caixotes do lixo. Por vezes, encontra algo que lhe vai servir de jantar.

Regressa ao lugar de abrigo e junta ao encontrado, dois pães e o conteúdo de uma garrafa cujo líquido, dada a penumbra do lugar não consigo descortinar. Faz o seu repasto sentado numa cadeira velha que talvez tenha encontrado à beira de um caixote do lixo.

Começa a organizar o seu lugar de dormida com os materiais que acima discriminei. Fica aconchegado debaixo dos cartões, são o seu tecto.

Tenho curiosidade em saber a que horas se levanta este homem de que não conheço a história de vida. Vou para varanda muito cedo. Às seis horas e trinta. Ao lusco-fusco, levanta-se, esconde a trouxa e aí vai ladeira abaixo. Vai com certeza à procura do seu mundo.

Tenho uma pena profunda deste homem. Perdeu tudo no emaranhado da vida e do mundo atroz que o rodeia.

São muitos milhares de sem-abrigo que este Portugal alberga. Vergonha.

Deixo a minha varanda, entro na minha sala em que o conforto impera. Sentei-me e fiquei a pensar incomodado.

 

Quem olha para Eles, para Ele?

Eu? Tu? Nós? Os políticos?

Não sei. Habituámo-nos a eles,

Quase objectos jogados ao chão,

Estátuas de carne mortificada,

Corpos torcidos, que misturam,

Fome, cimento, sono,

Papelão que são as suas casas.

Habituamo-nos a eles, como às pedras dos passeios.

Fardos largados à pressa na ruas que são a sua casa.

As ruas que se queriam sempre engalanadas para a eterna festa,

São hoje hospícios a céu aberto.

E o que faço eu?

Quase nada, morro com vergonha.


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