(prosa-verso)
Da minha varanda vejo-o chegar, quase todos os dias, por volta das 20 horas.
Sobe a ladeira encostado à farmácia que aí existe, localizada no prédio onde vai dormir.
É um homem com vestimenta andrajosa, cabelo desgrenhado, barbas compridas. Pressinto que tenha sido uma boa figura. Alquebrado pela subida, o seu rosto é triste. Como breu.
Aporta a uma ladeira do prédio que dá acesso a algumas garagens.
Chegado ao local, olha em volta, e vai buscar a um esconderijo um cobertor, uma almofada e pedaços de cartão que o abrigam do frio. É esta a sua casa.
Depois, e ajudado pelos candeeiros da rua, começa a esgaravatar os caixotes do lixo. Por vezes, encontra algo que lhe vai servir de jantar.
Regressa ao lugar de abrigo e junta ao encontrado, dois pães e o conteúdo de uma garrafa cujo líquido, dada a penumbra do lugar não consigo descortinar. Faz o seu repasto sentado numa cadeira velha que talvez tenha encontrado à beira de um caixote do lixo.
Começa a organizar o seu lugar de dormida com os materiais que acima discriminei. Fica aconchegado debaixo dos cartões, são o seu tecto.
Tenho curiosidade em saber a que horas se levanta este homem de que não conheço a história de vida. Vou para varanda muito cedo. Às seis horas e trinta. Ao lusco-fusco, levanta-se, esconde a trouxa e aí vai ladeira abaixo. Vai com certeza à procura do seu mundo.
Tenho uma pena profunda deste homem. Perdeu tudo no emaranhado da vida e do mundo atroz que o rodeia.
São muitos milhares de sem-abrigo que este Portugal alberga. Vergonha.
Deixo a minha varanda, entro na minha sala em que o conforto impera. Sentei-me e fiquei a pensar incomodado.
Quem olha para Eles, para Ele?
Eu? Tu? Nós? Os políticos?
Não sei. Habituámo-nos a eles,
Quase objectos jogados ao chão,
Estátuas de carne mortificada,
Corpos torcidos, que misturam,
Fome, cimento, sono,
Papelão que são as suas casas.
Habituamo-nos a eles, como às pedras dos passeios.
Fardos largados à pressa na ruas que são a sua casa.
As ruas que se queriam sempre engalanadas para a eterna festa,
São hoje hospícios a céu aberto.
E o que faço eu?
Quase nada, morro com vergonha.