Desde que me lembro que sou portista. Tive a felicidade de assistir, ao vivo e a cores, a grandes títulos nacionais e internacionais, coincidentes com a afirmação e consolidação do clube enquanto potência desportiva, aquém e além-fronteiras.
O caminho foi duro. Relembro-me, por exemplo, como na adolescência os portistas eram estigmatizados por não serem benfiquistas ou sportinguistas. Éramos apelidados de tripeiros, de andrades, de pertencermos a um clube de gente menor e desqualificada. Tal como nos tempos do partido único, a União Nacional, parecia que todos tinham de ser do clube único, dito do povo, o Benfica ou, em alternativa condescendente, ao Sporting.
Tive, inclusivamente, professores que me olhavam de lado quando me assumia como simpatizante azul e branco – pois nunca duvidei das minhas opções, nem sentia vergonha por não alinhar no rebanho dominante. Um desses professores, de coração vermelho e branco, chegou, inclusivamente, a ignorar-me em ambiente de sala de aula, não obstante o abuso repetido que fazia das suas alunas, quando as convidava para se sentarem na sua mesa. Outros tempos, que se fossem os tempos de hoje bem poderiam seguir um destino semelhante ao triste caso do CES.
Na minha opinião todos os clubes são do povo, embora os três grandes tenham uma dimensão nacional e internacional, que os distingue dos restantes. E é neste ponto que ainda hoje se sente o rasto de um passado que ninguém, creio, gostaria de ver regressar: afirmar que o SLB é o clube do povo é ridículo, diria mesmo, anedótico, só admissível dentro de um saudosismo que deriva de um passado muito longínquo em que vigorava a lei não oficial dos três F: Fado, Futebol (leia-se Benfica) e Fátima.
Na realidade não são os três ditos grandes clubes do povo? Não têm adeptos espalhados pelos quatro cantos do país e do mundo, sendo transversais em termos sociais? Pelo que veio a público, o FCP até é o clube português com mais seguidores nas redes sociais. Então em que ficamos?
Talvez tenham alguma dificuldade em perceber a razão deste artigo. Mas eu explico. Há dias, alguém com funções públicas entendeu emitir a opinião de que o Benfica, após a conquista do 38º título de campeão nacional, era o clube do povo. Não admitiu o contraditório e fez lembrar autoritarismos desnecessários nos tempos que correm. Estando exposto ao escrutínio público, os titulares destas funções devem ter alguma contenção no momento de expressarem as suas posições: governam para todos e não só para alguns, defendem o todo e não apenas a parte, foram eleitos com votos de vários clubes e não apenas com o do seu clube do povo.
Já tivemos que chegasse com o vieirismo, trama que tarda em ser desnovelada em toda a sua extensão, e na qual andaram envolvidos magistrados, ministros, dirigentes e quadros superiores de várias empresas públicas e privadas. Um escândalo que se fosse passado mais a norte faria manchetes sucessivas de dois dos três principais jornais nacionais, e edições especiais da CMTV, com as laranjo, guerras e C.ª Ldª a alimentarem horas contínuas de programação.
Destaco, em concreto, ao nível da imprensa, os periódicos A Bola e Record, em especial o primeiro, que consegue proezas inacreditáveis, como colocar o SLB na linha da frente do espaço noticioso, em sucessivas edições, como se só esse clube existisse no espaço desportivo nacional. Tendencioso como nenhum outro órgão de comunicação social desportiva, tenho-me questionado: quando chegará o dia em que se torna como órgão oficial do clube que desprezou Eusébio? (primeiro como jogador, depois enquanto pessoa, mas que o resgatou quando soube que o FCP se preparava para o contratar para funções dirigentes).
Nada justifica este posicionamento de jornais que se dizem de âmbito nacional. Talvez não convivam bem com os êxitos acima do Mondego, e se deixem influenciar pela proximidade geográfica aos emblemas da águia e dos leões. Se assim for, e não vejo outra razão plausível para esta dessintonia entre adeptos de primeira e adeptos de segunda, compreende-se a sua repugnância em exaltar o facto, por exemplo, de o FCP ter vencido 7 dos últimos 8 títulos nacionais em disputa. E de não terem enfatizado a grande festa do futebol nacional, que é a Taça de Portugal, por nela terem sido finalistas dois clubes do norte. O historial de diminuição de uns em prol dos outros não é, de facto, coisa recente. Basta relembrar quando os azuis e brancos foram campeões do mundo, em 2004, merecendo da parte desse jornal nacional um retângulo num qualquer canto inferior na edição do dia seguinte.
Por tudo quanto expus, termino dizendo que o Futebol Clube do Porto é, na realidade, não o clube do povo, mas sim o clube dos povos, isto é; de todos aqueles que habitando em diferentes comunidades, de norte a sul, gostam e sentem a instituição, não como clube único, de regime, mas sim contra a corrente, anti-fascista, e profundamente democrático. Tenho orgulho no meu clube e sinto-me feliz por ter assistido a todas as conquistas, ao vivo e a cores, de tal forma que é hoje o mais titulado clube nacional de futebol e aquele que mais provas internacionais conquistou!