18 de Julho de 2024 | Coimbra
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Freguesia Olivais: “Pobreza envergonhada continua a crescer de forma alarmante”

19 de Junho 2020

Conseguir responder a todos os pedidos de ajuda que continuam a chegar praticamente todos os dias à Junta é uma das maiores preocupações da Freguesia de Santo António dos Olivais. O presidente, Francisco Andrade, diz que a “pobreza envergonhada continua a crescer de forma alarmante”, o que tem obrigado o Executivo a fazer da área social a sua “grande prioridade”, sem descurar contudo os restantes setores que exigem respostas imediatas, como a questão da limpeza e das escolas.

Com uma população de cerca de 60 mil pessoas, às quais há a juntar praticamente outras tantas que por ali se movimentam diariamente, a Freguesia de Santo António dos Olivais é a maior do concelho de Coimbra mas também uma das maiores do país, superando mesmo, como destaca Francisco Andrade, “cerca de 80 por cento das câmaras do país em número de habitantes”.

Ao mesmo tempo que é um orgulho, esta dimensão representa também uma responsabilidade acrescida, exigindo mais trabalho e atenção redobrada, sobretudo quando a normalidade é interrompida e quando traz mudanças que vêm acompanhadas de dificuldades.

É precisamente com este cenário que a Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais se depara atualmente. Quando tudo parecia seguir um bom rumo e estar a melhorar, a pandemia da Covid-19 surpreendeu todos, deixando os que viviam já com dificuldades ainda em piores condições e “empurrando” outras famílias, que até agora tinham as suas vidas normalizadas, para situações de grande carência, fruto do encerramento das empresas, de situações de desemprego inesperadas ou da necessidade de se desdobrar no apoio a outros membros da família.

Para Francisco Andrade, neste momento, “a pobreza envergonhada é o grande problema desta freguesia e de muitas outras do país”, daí que a área social seja “a grande aposta e preocupação” do Executivo que lidera.

A assistente social “não tem tido mãos a medir” e tem estado no terreno diariamente, acompanhando todas as solicitações de ajuda que chegam, seja pelos próprios ou por familiares, amigos ou vizinhos que denunciam as situações graves de que têm conhecimento. O presidente da Junta dá conta que estas ajudas estão a ser asseguradas em várias frentes, sendo as carências mais sentidas a nível alimentar mas também na necessidade urgente de pagar “rendas de casa, faturas de água, gás e luz e comprar fraldas e medicamentos”.

No contexto atual, que levou muitas famílias a perderem rendimentos e a ficarem em casa por bastante tempo, surgiram outros pedidos, nomeadamente a nível de eletrodomésticos e mobiliário para a casa, bem como equipamentos informáticos fundamentais para permitirem que os alunos pudesssem ter aulas em casa durante este período em que as escolas permanecem encerradas, tendo aberto apenas para os alunos dos 11.º e 12.º anos.

Situações imprevistas exigem respostas imediatas

“A pandemia criou uma situação completamente imprevista. Os novos pedidos de ajuda estão sempre a surgir e temos o cuidado de não fazer promoção do que fazemos”, assegura o autarca, sublinhando mesmo que “todas as ajudas são anónimas”.

“O presidente limita-se a analisar o relatório que lhe é apresentado pela assistente social e a dar a sua autorização. De resto, tudo é feito de forma anónima, o presidente da Junta não sabe quem vai ser ajudado nem conhece as pessoas. A nossa assistente social tem autonomia total para fazer este trabalho”, realça.

De acorco com Francisco Andrade, o número de pessoas a precisar de ajuda “mais que triplicou” com a pandemia e “a tendência é para continuar a a aumentar”. Esta nova realidade faz com que os 30 mil euros votados em dezembro na Assembleia de Freguesia estejam longe de fazer face às necessidades que entretanto surgiram, o que levou o Executivo a canalizar para esta área social verbas alencadas a outras realizações que foram canceladas, nomeadamente as culturais (como a Romaria do Espírito Santo, os Santos Populares e as Noites de Verão).

A Junta contou, nesta fase, com a solidariedade de várias entidades, como através da oferta de viseiras, como sucedeu com a Universidade de Coimbra e o Instituto Superir de Engenharia de Coimbra, o que permitiu apoiar as Instituições Particulares de Solidariedade Social da freguesia. Também na área do ensino a comunidade disse “sim”, quando chamada a ajudar. A Câmara de Coimbra assegurou tablets e internet aos alunos do 1.º Ciclo do Ensino Básico mas a Junta de Freguesia, sempre em articulação com os seus três Agrupamentos de Escolas, procurou responder às necessidades dos alunos dos restantes anos, tendo conseguido, com a ajuda da comunidade, entregar algumas dezenas de computadores e tablets aos estudantes que não dispunham destes equipamentos.

Certo de que a estas carências se poderão seguir outras, fruto da “imprevisibilidade dos tempos que vivemos”, Francisco Andrade assegura que o seu Executivo “continuará muito atento e fará todos os esforços para apoiar a população”, garantindo que as pessoas e o seu bem estar “continuarão a ser sempre a maior preocupação”.

Comissão Social imparável

A Comissão Social de Freguesia tem feito “um trabalho notável no dia a dia”. Composto por várias entidades, este grupo tem sido “incansável” não só agora mas desde que foi constituído. Francisco Andrade diz que a articulação criada entre os vários organismos que a compõem veio garantir uma ajuda mais assertiva, que contemplasse todos os que mais precisam e que evitasse repetições nos apoios, como acontecia.

“Quando começámos a fazer a entrega dos cabazes de Natal, quase há 20 anos, cheguei à conclusão que havia muitos donativos repetidos. Houve a preocupação de evitar essas repetições e, para tal, pedimos a todas as instituições que fizessem uma lista com os nomes das pessoas que apoiavam. Isso permitiu que a mesma família deixasse de receber quatro cabazes e que outras que não recebiam passassem a contar também com esta ajuda”, explica.

Outra das preocupações prende-se com as condições habitacionais. No âmbito de um levantamento pedido pela própria Câmara Municipal, que analisa o acesso à habitação, foram sinalizadas pelo Gabinete de Ação Social da Junta de Freguesia mais de 200 situações, num trabalho articulado com as habituais entidades parceiras. Esta análise contemplou situações diversas, sendo prioritárias as pessoas vítimas de violência doméstica, insolvência, sem abrigo, sobrelotação/habitação insuficiente para a composição do agregado familiar, insulabridade e insegurança, pessoas que vivem em alojamento ilegal, improvisado ou em núcleos degradados.

Na análise efetuada pela Junta, a equipa da Ação Social sinalizou os grupos mais vulneráveis, que são bastante transversais, desde os idosos a jovens casais. Rendas elevadas, a exigência de fiador, pagamento de um ou mais meses de caução e alugueres sem contrato nem emissão de recibo são algumas das principais dificuldades que as famílias encontram na hora de procurar casa. Esta realidade faz com que haja pessoas a viver em garagens adaptadas e em alojamentos desadequados às suas necessidades, como sucede no caso de prédios sem elevadores, o que condiciona o dia a dia dos idosos e das pessoas com mobilidade reduzida. Há também situações de habitações a precisarem de reparações urgentes que não são feitas por falta de meios económicos.

Atividades dos seniores retomadas progressivamente

Com uma assistente social há cerca de 20 anos, a Freguesia dos Olivais sempre dedicou especial atenção a esta área social. Dada a dimensão da sua população, muita já mais envelhecida, a Junta procurou sempre encontrar respostas que fossem ao encontro das suas necessidades, tanto a nível de apoio económico como também numa perspetiva do envelhecimento saudável e com qualidade de vida.

Foi mesmo pioneira, na altura, no lançamento de um conjunto de atividades direcionadas para os séniores, que os incentivava a sair de casa, a conviverem e a deixarem-se desafiar em áreas novas, como a natação, a música, a pintura, a ginástica, entre outras.

Atualmente, são mais de 400 os séniores que frequentam todas as atividades dinamizadas pela Junta – yoga, chi kung, hidroginástica, teatro, alfabetização de adultos, coro misto, marchas populares e, esporadicamente, sessões de saúde. Todas estas atividades foram interrompidas em março, quando começaram a surgir os primeiros casos de Covid-19, mas estão a ser agora retomadas algumas, que não acarretem tantos riscos de contágio e que possam funcionar ao ar livre.

Francisco Andrade considera que é fundamental que a população retome uma “certa normalidade”, até porque esta situação da Covid-19 levanta “dois problemas distintos – por um lado o idoso corre riscos ao vir para a rua mas, por outro, há também o perigo de se estar sozinho, fechado em casa e sem ter com quem conviver”.

Perante esta realidade, a intenção do Executivo é averiguar, juntamente com os professores, a viabilidade de retomar algumas destas atividades. Para já, avançam as que podem funcionar ao ar livre, no Largo Padre Estrela Ferraz, como o yoga e o chi kung, salvaguardando sempre as recomendações da Direção Geral de Saúde, como a distância social e o uso de máscaras. “Apesar destes condicionalismos, é muito importante que as pessoas possam manter alguma atividade porque temos muitos dos nossos idosos a queixarem-se que envelheceram neste período de confinamento”, alerta.

Francisco Andrade recorda que, no total, são mais de 400 as pessoas que frequentam as atividades direcionadas para os séniores. Com este calendário anual, a Junta assegura um programa regular, que as faz sair de casa, conhecer outras pessoas e manterem-se dinâmicas, ao mesmo tempo que lhes proporciona também espaços de aprendizagem, como acontece nas aulas de pintura, artes decorativas e nas aulas de alfabetização para adultos.

No seu conjunto, são todas atividades que ajudam a cuidar do corpo e da mente, garantindo uma vida social mais rica, que as ajudam a descobrir novas “paixões”, que lhes “alimentam” a alma e enriquecem os dias numa altura das suas vidas em que têm mais tempo livre. “É uma forma de se manterem em movimento e em trabalho mas também de união, de promover o convívio e combater o isolamento”, assegura.


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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