19 de Janeiro de 2026 | Coimbra
PUBLICIDADE

António Inácio Nogueira

Encontrei o Zé

14 de Março 2025

Encontrei o Zé: velho, semblante triste, debilitado, com rugas bem sulcadas. Caminhava amparado e a (des)tempo, por alguém que não conheci.

O Zé lá ia deambulando pelo passeio andando, calado, cabisbaixo. Passei mesmo ao seu lado, reconheci-o de imediato; ele olhou-me indiferente. Continuei o meu caminho, recordando o Zé na nossa juventude. Éramos mesmo amigos. Percorremos as mesmas andanças na Escola Primária e no Liceu na Guarda.

Parei um pouco à frente, e «um passarinho ao ouvido» aconselhou-me a voltar para trás; ir ao encontro do Zé. Alarguei o passo e com o auxílio da minha bengala, acerquei-me do meu amigo.

Detive-me na sua frente. A mulher que o levava pelo braço, ficou incomodada com a atitude. Pedi desculpa. Olhei o meu amigo Zé, bem nos olhos, na profundeza dos olhos até lhe entrar na mente. Li um sorriso brando na cara do Zé. Perguntei: – “quem sou eu Zé?”

A resposta demorou, mas chegou: – “és o Inácio.”

Vi que caíram lágrimas daqueles olhos, ainda bonitos. Na juventude, por serem azuis cor do mar, eram a perdição das meninas, nossas colegas.

Oh Zé, – “lembraste das cambalhotas perigosas que dávamos naquele chão destratado e cheio de pedras do recreio da Escola Primária primaria? Recordaste dos jogos de futebol disputados na nossa rua do Bonfim, não alcatroada, balizas feitas com pedrinhas e canelada que baste que nos levava a trazer as pernas pintadas de mercúrio? Oh Zé, relembras os jogos da equipa de voleibol do Liceu, com as galerias cheias de miúdas a ver e a aplaudir. Todas sabiam os nossos nomes, éramos os melhores. E a ida aos medronhos ao Seminário, sempre perigoso, porque os padres atiçavam-nos os cães. Oh Zé, e as tropelias que fazíamos a alguns professores que tinham como consequência a nossa a ida ao Reitor? E os «copianços»? Oh Zé, e o olhar das miúdas e nós armados em «engatatões»… e aquela Maria José que ambos disputávamos! Oh Zé, tantas e tantas coisas havia para contar, umas boas, outras nem por isso, mas que também nos fizeram os homens que hoje ainda somos.

O Zé riu. A mulher que o acompanhava disse-me que há muitos meses não o via sorrir, Depois, a muito custo, balbuciou: – “era bom, mas não volta!”

As lágrimas dele eram muitas, para tão poucas memórias descritas. As minhas também. Não há dúvida, as reminiscências são a festa dos mais velhos, dos mais frágeis.

Fiz bem em voltar atrás e falar com o Zé. Ele ganhou um sorriso e recordou, com agrado, passos da sua vida. Eu adquiri a certeza de que ainda posso ser útil para alguém e não só estorvo.

A senhora que o acompanhava, chamou-me um pouco à parte e disse-me: – “tem Alzheimer, o seu antigo”

E continuou: – “durante estes fugazes minutos voltou a ser ele…obrigado por conseguir fazê-lo feliz, por instantes”.

Segui o meu caminho…ainda olhei para trás…, porventura, mirei-o pela última vez.

 

[Este acontecimento não é invenção. É verdadeiro. Os nomes são supostos. Avenida Calouste Gulbenkien, dia 15 de Fevereiro de 2025].


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

Todos os direitos reservados Grupo Media Centro

Rua Adriano Lucas, 216 - Fracção D - Eiras 3020-430 Coimbra

Powered by DIGITAL RM