Diamantino Duarte Simões lançou no passado dia 21 de outubro o seu oitavo livro. Intitulado “Marta e os Cinco Cabritinhos” foi o último trabalho da série iniciada em 2016 com a problemática do Bullyng. O evento decorreu no salão nobre da Junta de Freguesia da Ribeira de Frades, tendo como apresentadores: da obra, José Vieira Lourenço; e do autor, o redator destas linhas. A sua obra literária que merece ser conhecida pelo público mais vasto, contém alguns aspetos naturalmente correlacionados com o seu trajeto biográfico que vale a pena (re)descobrir,
Nascido em dezembro de 1951, na aldeia de Gagos, Cumeeira – Penela, foi o mais novo de três filhos de uma família pobre, católica tradicional, que sobrevivia da agricultura de subsistência.
Em 1963, um ano depois de ter terminado a instrução primária, entrou no Seminário Diocesano, que frequentou durante oito anos, repartidos por Buarcos, Figueira da Foz e Coimbra, onde concluíu o 7º ano (actual 11º). Uma experiência marcante pois os alunos eram tratados com diminuição intelectual: um dia, por exemplo, levou duas bofetadas, que lhe doem mais hoje do que na altura, pois se então tinha dúvidas da razão da medida aplicada, hoje nenhuma dúvida tem da ausência de razão naquela medida – fazendo lembrar os sacrifícios descritos em Manhã Submersa, de Vergilio Ferreira.
Iniciou a sua vida profissional em Penela, na Escola Preparatória entretanto aberta e em outubro/72 ingressou no serviço militar obrigatório. Em fins de setembro/73 cumpriu a comissão em Angola, de onde regressou a 11 de março de 1975, numa mera coincidência com o acontecimento político que marcou os anais da nossa história contemporânea. Da passagem pelo Ultramar regista com algum humor «a sorte de não ter visto nem ouvido a guerra».
Seguiu-se a prioridade da vida profissional. Em face da dificuldade em conseguir emprego, chegou a ponderar seriamente enveredar pelo serviço militar. Tendo aberto concurso para a GNR, e suposto não ter grande dificuldade em ser admitido, desistiu da ideia por falta de perfil para tal.
Veio a entrar no serviço distrital de saúde (mais tarde ARS) dando início a uma carreira profissional de administrativo, tendo-se aposentado em setembro/2011, quando desempenhava funções no Instituto Português do Sangue ─ Centro Regional de Coimbra. Duma vida de trabalho reteve várias lições, talvez a principal a de que «quem não erra está cá a mais» e que existe uma substancial diferença entre líderes e chefes.
Casou em 1976 mas a felicidade seria interrompida em 1986 com a partida prematura de sua esposa Madalena. Do curto matrimónio nasceram três filhas, duas emigradas e a mais nova residente em Aveiro. Com seis netos, utiliza o Skype e o Whatsapp para matar saudades com a parte da familia que emigrou, indo regularmente a Aveiro numa rotina que se interrompida carece de justificação ao neto Nuno, com seis anitos.
A doença ou o ponto de partida para uma nova vida
Em outubro/2005 um segundo grande infortúnio lhe bateu à porte, com diagnóstico de parkinson. Na sua interpretação da doença afirma ter encontradoas primeiras manifestações em finais da década de 80, o que ao tempo não valorizou. A doença tornou-o interventivo, lutador e não resignado. Entre 2010 e 2015 foi Delegado distrital da Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson. Utilizador das redes sociais escreveu vários textos na página virtual daquela associação.
Também no Facebook desenvolveu a página Aprendiz de viver e presentemente mantém uma muito curiosa Escola de avós – abordagem entre avô e neto a temas que surgem de forma aleatória e que surgiu com a pandemia COVID19: tendo o confinamento em Portugal e Reino Unido começado no mesmo dia, a filha propôs-lhe fazer umas sessões de português com o neto, ao tempo com oito anos. Afirma Diamantino: «Não sei quem ficou mais entusiasmado com a ideia, avô ou neto, creio que os dois. Fazíamos sete sessões por semana, via Skype, ainda hoje continuamos, haja agenda para tanto. Entendi que esta experiência, tão enriquecedora e insuperável deveria ser tornada pública, poderia a ideia ser proveitosa a alguém, daí ter surgido a “Escola de avós”. Tenho recebido muitas manifestações de aplauso e estímulo para continuar, estando em compilação um livro».
Diamantino cultiva, como já assinlámos, um humor refinado. Assumiu, por exemplo, escrever todos os dias, com excepção, segundo o próprio, «dos dias em que não escrevo», seguindo uma tendência familiar que teve no seu irmão mais velho, o padre Abilio, articulista e diretor do bem conhecido «Correio de Coimbra» a bússola orientadora e farol inspirador. Inspiração que de todo busca nos telejornais que na sua óptica são «piores que um filme de terror».
Na Ribeira de Frades desde 2011 e já na qualidade de reformado, afirma que ao contrário do que julgava que seria a aposentadoria «não tenho tempo para metade das coisas» servindo-lhe a escrita «para ocupar o tempo». «Quem escreve, escreve-se», confidenciou, tendo adoptado um estilo de escrita não concreta, para dar a volta às limitações trazidas pela sua condição.
Preza a verdade, a sinceridade e a humildade, que considera «um ato de inteligência». Não gosta de títulos, como Senhor Diamantino, por considerar que criam barreiras e camuflarem, por vezes, não complexos de superioridade, mas sim de inferioridade.
O Diamantino é na realidade um “Diamante”, afirmação do professor Lourenço aquando do uso da palavra, que subscrevo por inteiro. Por tudo aquilo que foi, é e continuará a ser merece toda a nossa admiração. Um raro exemplo de quem ousou superar-se a si próprio.