10 de Dezembro de 2025 | Coimbra
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João Pinho

DESPERTAR EM VÉSPERA DE ELEIÇÕES

8 de Março 2024

Os 107 anos do mais antigo periódico de Coimbra cumprem-se nas vésperas de um dos mais importantes momentos da  nossa vida democrática: as eleições legislativas. Como foi longo o caminho que nos trouxe aqui, depois de uma tumultuosa Primeira República, seguida do mais longo regime autoritário da Europa Ocidental (48 anos) e, por fim, da crise revolucionária de 1974 que pôs termo aos dias cinzentos de isolamento, privação de direitos, liberdade e garantias, individuais e coletivas.

Momentos da nossa história que O Despertar foi assinalando nas suas edições, tornando-se, desse modo, uma fonte privilegiada para o estudo da época contemporânea, ao nível dos movimentos políticos, sociais e culturais que animaram o séc. XX. Incluindo a perseguição de que foi vítima durante o Estado Novo, à semelhança de outros periódicos, com o cutelo da censura, das condicionantes ao livre exercício da escrita, opinião, investigação, entrevista e reportagem.

Este aniversário adquire, por força das circunstâncias, um significado especial: por um lado, cumprem-se, em 2024, 50 anos sobre a porta da liberdade que abril nos ofereceu, ultrapassando desse modo a cronologia do autoritarismo anterior; mas, por outro, o marco coincide com a ascensão perigosa do extremismo, populismo e discurso demagógico – cujo programa anuncia a alteração de regime, o regresso do conservadorismo e nacionalismo.

A hora é de profunda reflexão. A partir da conhecida frase de Churchill: “a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros” importa problematizar um conjunto de questões, que há muito deveriam constar como prioridade política, cívica, académica e até familiar: que futuro queremos para a nossa sociedade e para os nossos filhos? Que democracia construímos e desejamos construir? Temos feito individual e coletivamente tudo aquilo que está ao nosso alcance para mudar o que está mal e assegurar o que de bom foi feito? Participamos ou limita-mo-nos a observar, opinando à distância dos factos e das realidades? Conhecemos, no mínimo, a organização política do país e o funcionamento das instituições? Quais as razões da juventude andar tão distanciada e alheada da vida política? A quem interessa, realmente, a mudança de paradigma político?

            Saber o que nos custou a liberdade, entre perseguições, deportações, feridos e mortos, e assistir ao crescimento da extrema-direita no espetro político, não só a nível nacional, mas também internacional, significa que a democracia, no seu todo, está a falhar ou, no mínimo a vacilar, também por omissão ou conivência de setores da própria classe política.

            E há nesta triste realidade uma relação com a imprensa: as pessoas não leem, não procuram saber mais sobre a história, não estão conscientes dos perigos de uma deriva deste género. Delegaram nos outros a sua própria responsabilidade de intervenção cívica, por conveniência, comodismo e ignorância. E, também, nalguns casos por receio de represálias profissionais e pessoais, matéria a merecer dos agentes políticos e autoridades uma sensibilização e atuação especial na sociedade.

            Convido-os, por isso, a dirigirem-se à Biblioteca Municipal de Coimbra ou à Biblioteca Geral da Universidade e pesquisarem nas antigas edições de O Despertar, informações válidas sobre cada um dos períodos histórico-políticos que assinalei: Iª República, Estado Novo e pós 25 de Abril. Verifiquem as diferenças ao nível das linhas editoriais, os constrangimentos, avanços e recuos, por entre luzes e sombras.

            Talvez esteja na hora de o próprio jornalismo se reinventar ao nível da formação ministrada, incutindo nas novas gerações de profissionais outro tipo de sensibilidade para a História e Cultura contemporâneas. Na linha aliás, daquilo que a antiga escola de jornalismo coimbrão sempre defendeu e praticou, desde Martins de Carvalho e o Conimbricense, passando, mais tarde obviamente pelos Sousas e O Despertar.

            Em véspera de eleições a palavra de ordem só pode ser uma: Despertar para a Democracia. Com votos de vida longa, próspera e feliz, a todos aqueles que têm dado seguimento à missão iniciada em 1917 pelo mais antigo periódico da região; regionalista, das freguesias, democrático, do povo, da instrução, do esclarecimento e da cultura.

           

           

 


  • Diretora: Lina Maria Vinhal

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