22 de Maio de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Desafios da atualidade

20 de Março 2026

A cultura científico-tecnológica suscita alguns desafios para a humanidade. O futuro não está isento de perigos que afetam a vida humana, como a manipulação genética, a invasão da privacidade, a limitação da liberdade, o desemprego por efeito da robotização, gerando tensões sociais e conflitos políticos. A atitude face à tecnologia não é consensual: alguns dignificam-na porque veem nela a libertação do homem, considerando-a fonte de progresso e, como tal, libertadora do peso da tradição com vista a um futuro radioso. A tecnologia proporciona aos homens os meios necessários à sua informação, formação e emancipação. Contrariamente a esta atitude otimista existe a que considera a tecnociência como fonte de graves e muitos perigos para a humanidade. O bem-estar, tão prometido pelo desenvolvimento tecnológico, não foi ainda alcançado. Pelo contrário, as necessidades e oportunidades sempre novas que a tecnologia cria produzem maior ganância, ansiedade e frustração. A transformação das pessoas em máquinas ou números, a introdução da informática a todos os níveis, dão cada vez mais a possibilidade de controlo dos cidadãos pelo Estado e também, por extensão, a existência de armas com poder intensamente mortífero à escala mundial, contribuem para que cada vez mais pessoas se sintam menos seguras e ameaçadas; as desigualdades sociais não se atenuaram e, pelo contrário, agravam-se e não se erradicou a pobreza. A tecnociência será assim a maior ameaça que paira sobre o futuro da humanidade, porque com o seu desenvolvimento coloca-se atualmente o problema de saber se o Homem a conseguirá ou não dominar e controlar ou se se deixa aniquilar por ela. É este um desafio para a humanidade. Por isso, há quem receie o futuro pois sabe que a tecnociência tem poderes que pode não conseguir dominar. A destruição da humanidade ou o seu bem-estar e sobrevivência está nas mãos do Homem. Torna-se necessário questionar a tecnologia, o seu uso, as possíveis consequências, a sua relação com a ciência, o tipo de sociedade por ela gerada e todo um conjunto de outros problemas que esta situação em que vivemos suscita. As máquinas já influenciam de modo excessivo e condicionam o nosso viver humano, talvez demasiado humano para os tempos atuais, automatizando os comportamentos e transmutando os homens em seres mecânicos e alienados.

A ciência não é neutra e o seu desenvolvimento pode orientar-se, não no sentido de atenuar e facilitar a vida humana, mas até de a pôr em perigo: as bombas nucleares de Hiroxima e Nagasáqui são uma recordação amarga dos efeitos perversos da ciência e de que ela pode ser utilizada para fins menos dignos e para a destruição. Será a ciência um conhecimento objetivo, completamente à parte da sociedade, dos problemas que nela existem, da classe política dirigente, dos interesses económicos dominantes? Parece que há interesses não científicos, de ordem económica, política e militar, que orientam e influenciam a investigação científica. A ciência não é um puro saber, mas também uma forma de poder: poder agir, poder manipular, poder transformar, poder dominar. A tecnociência confere ao Homem um poderio quase ilimitado que, tendo aspetos positivos, não deixa de envolver um número elevado de perigos para a humanidade. Se o Homem explorar descontroladamente as possibilidades da tecnociência, põe em risco o planeta e pode desencadear a sua autodestruição, transformando-se: como será a humanidade no futuro, quando já se desenvolve a inteligência artificial ou se puder modificar geneticamente embriões no sentido de aperfeiçoar a espécie, como nova eugenia? O objetivo futuro será criar um super-humano? Com que atributos?

É necessário que o progresso científico e tecnológico seja controlado racionalmente, de modo consciente e eticamente responsável.  Seria absurdo menosprezar os inegáveis benefícios da ciência e da tecnologia, mas elas devem ser utilizadas de forma apropriada para a implementação do bem-estar de todos. A humanidade tem hoje consciência de que os saberes científico-tecnológicos são condição necessária do desenvolvimento, mas não são condição suficiente. A ciência e a tecnologia contribuem para o progresso civilizacional, mas não são, só por si, o progresso. Impor-se perante as consequências nocivas da ciência e da tecnologia será, atualmente, um dos maiores desafios da humanidade.


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