Atendendo a que as necessidades se mantinham, reteve-se no mesmo posto de trabalho, cerca de dois anos, após o que -, talvez por lhe reconhecerem uma certa versatilidade de adaptação a outras funções -, lhe deram a oportunidade de ir progredindo, o que não renegou, vindo a atingir uma posição equiparada às de topo, e cuja remuneração foi acompanhando, paralelamente, essa ascensão. Mas, logo que completou quatorze anos de idade, mantendo-se embora na mesma empresa, foi-se matricular na Escola Comercial Oliveira Martins, no regime noturno – por ser o único destinado aos trabalhadores -, em virtude de família não poder prescindir do seu salário.
Frequentou a dita Escola até quase completar o 4º ano, tendo desistido para enveredar pela preparação de admissão ao 1º ciclo dos liceus, o qual servia como trampolim para ascender ao o 5º ano (atual 9º) que, na sua ótica valorativa de então, seria suficiente para se candidatar a um lugar de empregado de escritório, mais ou menos qualificado, ou a outro qualquer na função pública, dado que para esta, já naquele tempo, eram exigidas tais habilitações mínimas.
Ainda a trabalhar como operário na empresa fabril em que se iniciou, foi-se candidatando a vários lugares de escriturário nas empresas que os iam anunciando, apesar ter ainda mediana prática de escritório, não vacilou e com ânimo forte de se promover, lá se propunha, até ser chamado para um dos lugares vacantes, para o que era, previamente, submetido a um teste oral ou/e escrito, de avaliação das suas aptidões profissionais. Confessou mais tarde que não foi feliz com as opções que encontrou, porque as funções que desempenhava se prolongavam muito para lá do horário normal, ou pela constante insatisfação e impertinência da entidade patronal com o resultado do trabalho realizado, que achava sempre pouco, gerando constantes conflitos entre ambos, dando ensejo ao termo forçado das relações de trabalho. Contudo, todos esses lamentáveis episódios não conseguiram beliscar os créditos socioprofissionais do nosso misterioso personagem, e nem sequer afetaram o seu curriculum vitae.
Dois anos antes do desfecho dos episódios que acabámos de descrever, iniciou a escalada para completar o 5º ano (hoje 9º), pelo que decidiu enveredar pela via do Instituto Comercial do Porto, cuja admissão era um obstáculo muito difícil de transpor, em virtude da estrutura do exame de admissão integrar uma prova escrita de português, eliminatória, delineada numa espécie inigma que, só com um prévio e aturado trabalho de pesquisa, os alunos acertavam nas respostas. Mas a sua vontade de vencer mais uma vez superou as dificuldades e lá ingressou naquela Instituição, no regime noturno – para trabalhadores -, optando pelo curso de preparação ao ensino superior.