Há crianças que sobrevivem, mas nunca serão capazes de entender a guerra. Esta é uma frase de Rebecca Clifford, exposta com afogo no seu livro, Sobreviventes a Vida das Crianças Após o Holocausto, editado pelo Grupo Almedina.
Um trabalho soberbo, angustiante, desafiante, que penetra no âmago das nossas entranhas e nos devia levar a gritar, a plenos pulmões, guerras jamais.
Mas não, os homens estão surdos, operam pelo dinheiro, pela venda e fabrico de armas malévolas que arrasam cidades, aldeias, sacrificam vidas, – o altar dos que não combatem e enriquecem desmedidamente.
No seu livro, Rebecca, deslinda as histórias de duas meninas que atestam o estranho mundo em que as crianças sobreviventes do holocausto se encontravam durante os primeiros anos do pós-guerra. Era um mundo, continua a escritora, na qual as verdades aparentes podiam ser instantaneamente derrubadas de uma forma chocante. Pais que se pensavam estarem vivos mas que afinal já tinham falecido; pais dados como mortos podiam de repente aparecer vivos. A verdade era muitas vezes desconhecida, mas com a mesma frequência era escondida das crianças… alguns adultos ouviam as memórias perturbadoras das crianças e as perguntas das crianças, mas com muito mais frequência esquivavam-se à curiosidade das «miúdas» sobre o seu passado. Isto significa viver com infâncias marcadas pela ruptura, pela perda, pelo trauma que magoa, ou melhor, dói muito por dentro.
Rebecca, no meio deste torvelinho turbulento, trágico, angustiante, vai ao âmago da questão, e pergunta-se: como poderemos dar sentido à vida se não conhecemos as nossas origens? Como deve ser violento viver infâncias marcadas pela ruptura e pela perda!
E, hoje, o que fizeram os homens às crianças na faixa de Gasa? Aprenderam alguma coisa com o Holocausto? Não, repetem tudo. A escalada das hostilidades na Faixa de Gaza teve um impacto catastrófico nas crianças. Meninas e meninos estão morrendo a um ritmo alarmante – milhares já sucumbiram, outros tantos estropiados, deficientes para o resto da vida. Alguns com traumas incuráveis Estão sem água, comida, combustível e remédios. As suas casas foram destruídas; suas famílias dilaceradas.
Gaza é o lar de pouco mais de um milhão de crianças e adolescentes. Eles são quase metade (47%) do total de 2,2 milhões de habitantes. Neste contexto, podemos afirmar, que é uma guerra contra as crianças, porque elas são a maioria, elas são as mais vulneráveis, elas são as que estão mais expostas às consequências dessa guerra — dizem os especialistas da UNICEF.
As crianças em Gaza estão presas num pesadelo que restará para o resto das suas vidas, como aconteceu com as do holocausto.
Vejamos, de seguida, a situação das crianças da Ucrânia. Passam por condições de violência, trauma, destruição e deslocamento. Meninas e meninos, continuam a ser mortos, feridos e profundamente abalados pela violência que provocou deslocamentos numa escala e numa velocidade nunca vistas desde a Segunda Guerra Mundial. Escolas, hospitais e outras infraestruturas civis, das quais dependem, continuam a ser danificados ou destruídos.
Crianças separadas das famílias e amigos são vidas dilaceradas. Foram privadas de uma infância feliz, de tempo socializante, de uma vida pacífica. Todos carregam cicatrizes invisíveis e traumas que podem levar uma vida inteira para cicatrizar.
E nas guerras, guerrilhas, terrorismo, em todos os outros continentes? As crianças são sempre as vítimas da brutalidade dos Senhores da Guerra.
Perguntemo-nos porquê. Todos.