A Câmara Municipal de Coimbra aprovou, na reunião da última segunda-feira, a celebração de um contrato de subconcessão com a IP Património para assumir a utilização da Estação Nova e avançar com a sua reconversão. A deliberação abre formalmente o projeto de reabilitação do antigo terminal ferroviário para usos de inovação, cultura, atividade económica e fruição pública.
Segundo o município, a operação prevê uma subconcessão por 50 anos, numa área de cerca de 5 286 m², com um investimento global estimado em até 16 milhões de euros e execução num horizonte máximo de sete anos. A intervenção será faseada: numa primeira etapa, a ala poente receberá o Hub de Desenvolvimento da GoCoimbra; numa fase posterior, o edifício será reaberto progressivamente ao público e articulado com uma nova praça virada para o Mondego.
Discussão
A discussão política centrou-se na versão inicial da documentação de suporte. A Critical Flytech foi referida como “parceiro estratégico estruturante” da primeira fase, que prevê a instalação de uma “Fly Academy”. A vereadora Ana Bastos contestou a menção nominal a empresas, afirmando a ilegalidade da situação e invocando “transparência, igualdade e competitividade”.
A presidente da Câmara, Ana Abrunhosa, respondeu que a referência dizia respeito a um projeto de escola e mandou retirar os nomes das empresas do texto de suporte. Abrunhosa acusou a oposição de querer “adiar as coisas”. A proposta acabou por ser aprovada por maioria, com as abstenções da própria Ana Bastos e do antigo autarca José Manuel da Silva.
No enquadramento político da autarquia, a reconversão é apresentada como resposta ao vazio deixado pelo fim do uso ferroviário. Ana Abrunhosa descreveu Coimbra como estando num “período de transição que abre uma oportunidade única” e resumiu a estratégia: “reabilitar, ativar e reconverter funcionalmente o edifício”. O município acrescentou ainda que o plano inclui um “espaço-memória” para preservar o legado ferroviário da estação.
O contexto ferroviário ajuda a explicar a urgência. A Infraestruturas de Portugal anunciou em janeiro do ano passado que a ligação entre Coimbra-B e Coimbra (Estação Nova) seria desativada definitivamente, com supressão do serviço e transbordo rodoviário assegurado pela Metro Mondego no âmbito das obras do Sistema de Mobilidade do Mondego. Desde então, o edifício ficou sem a sua função de terminal.
A margem de intervenção, porém, é exigente. A Portaria n.º 611/2013 classifica a Estação Nova como Monumento de Interesse Público e fixa a respetiva zona especial de proteção. A ficha pública do Património Cultural confirma essa classificação e regista que o edifício foi construído entre 1925 e 1931, com projeto de Cotinelli Telmo e Luís Cunha. A própria Câmara sublinha ainda a integração do imóvel na zona de proteção da Universidade de Coimbra — Alta e Sofia.
Com a aprovação em executivo, Coimbra passa de uma discussão centrada no encerramento da estação para uma discussão sobre a execução: financiamento, fases, usos e desenho final de um imóvel classificado que a autarquia quer recolocar no centro da vida urbana. O município diz ter uma solução faseada; a prova seguinte será traduzi-la em obra e função.