O Clube da Natureza e Património de Assafarge comemora, neste mês de janeiro, quatro anos de existência. Este clube, a mais recente secção do Centro Desportivo e Recreativo Popular de Assafarge (CDRPA), foi fundado por iniciativa do presidente da Direção deste Centro, Luís Carlos Ferreira, mas inspirou-se no trabalho de dois jovens com raízes na União das Freguesias (UF) de Assafarge e Antanhol – Inês Ferreira e Gil Matos.
Foram precisamente estes dois jovens que, no outono de 2017, depois dos trágicos incêndios que devastaram a região, organizaram uma recolha de sementes da flora nativa (arbustos e árvores) dos antigos carvalhais de Assafarge, com vista à criação de um viveiro de plantas, destinadas a doação para reflorestação das áreas ardidas na região Centro de Portugal. “Colheram sementes, desde bolotas até às bagas dos frutos silvestres, para fazerem um viveiro e doarem as plantas. Entretanto os viveiros não tiveram continuidade porque ambos os jovens seguiram percursos fora de Coimbra”, explica Cristina Seabra, bióloga e uma das responsáveis pelo grupo.
Houve, contudo, “um grupo de amigos que tomaram consciência da urgência em preservar as relíquias, ainda existentes, de fauna e de flora silvestre dos campos e das antigas matas e bosques mediterrânicos, cuja área tem vindo a diminuir bastante nos últimos 30 anos, principalmente devido à expansão da urbanização, desmatação para lenha, abertura de estradas e perda de solos férteis, selados pela construção de infraestruturas humanas em locais sensíveis, de interesse ecológico”.
Cristina Seabra lembra que o grupo surgiu precisamente “dessa necessidade de preservar as relíquias locais, quer o património natural, quer o património rural antigo”. Sublinha que a UF de Assafarge e Antanhol, tal como sucede também em Cernache, ainda tem “muitos muros de pedra seca e as cortelhas”, casas que se encontravam no meio da natureza e que serviam de abrigo a pastores e agricultores. Para além das várias espécies, é também esse património que este grupo quer valorizar e preservar, evitando que seja destruído por pessoas que desconhecem a sua importância.
“Começámos a perceber que esse património está em risco porque a pressão sobre a terra é cada vez maior, seja por abertura de estradas, seja pelo crescimento da urbanização. O Plano Diretor Municipal protege determinadas zonas do concelho mas, por vezes, há situações que nos ultrapassam”, assume.
Cristina Seabra considera que muitos desses “atentados” à natureza e ao património acontecem “por desconhecimento” e dá como exemplo a forma como foram realizados cortes de árvores na primavera de 2018, por medo das coimas impostas a quem não tivesse os terrenos limpos. “Houve pessoas que mandaram arrasar carvalhais inteiros e não tinham que o fazer. Tinham apenas de controlar a vegetação arbustiva que depois seca no verão. Retirando a sombra da copa das árvores, o mato vai ter mais luz e vai crescer muito mais”, explica.
São todos estes fatores e “ameaças” que vão surgindo ao longo dos tempos, como as alterações climáticas, que levou este grupo a querer “inventariar, conhecer e conservar o seu património rural e natural, em prol da saúde pública e da qualidade de vida da população residente, atraindo investigadores e visitantes de outras regiões”.
Educar para o ambiente
“No sentido da valorização cultural, ecológica e económica das nossas aldeias, pretendemos promover a formação e educação ambiental de toda a comunidade, principiando pelos proprietários que já manifestaram interesse em conservar o património herdado”, refere Cristina Seabra.
Nestes quatros anos, é esse trabalho que o grupo tem vindo a fazer, com vários eventos realizados, como passeios temáticos interpretativos, oficinas, workshops e tertúlias. Tem também em curso um projeto de trilhos pedonais pelo património da freguesia. A pandemia veio limitar alguma da sua ação mas o grupo continua a realizar vários eventos públicos, muitos deles online, e nunca interrompeu o serviço público gratuito de educação ambiental, através das redes sociais. Espera retomar as atividades presenciais em breve, dependendo da evolução da pandemia e das indicações das autoridades de saúde. A próxima iniciativa está marcada para 19 de fevereiro, uma sessão sobre a qualidade do ar, onde pretendem sensibilizar para o problema da queima excessiva de lenha.
“A educação ambiental em Coimbra está toda por fazer. Tem que se levar a informação às pessoas e ajudá-las a dar valor ao que é importante e, ao mesmo tempo, valorizar as memórias e saberes dos mais velhos”, realça Cristina Seabra. Espera que “com o envolvimento de todos, desde o ensino pré-escolar e ensino básico, à paróquia, Junta de Freguesia, centros sociais, empresas e associações locais, se possa contribuir para colocar a União de Freguesias de Assafarge e Antanhol no mapa das boas práticas ambientais, a nível nacional e internacional”.