16 de Março de 2026 | Coimbra
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Chama-se Sapataria Caravela mas está difícil aguentar o barco

19 de Julho 2024

A Sapataria Caravela está situada na Rua da Louça, na Baixa de Coimbra, e existe há cerca de 62 anos.

Funcionário do estabelecimento, constituído por uma parte juvenil e outra de adultos, há 35 anos, António Alves conversou um pouco com O Despertar acerca da evolução do negócio desde que lá trabalha, revelando que “tem sido sempre a cair”.

Dado o facto de o negócio não estar a passar por tempos áureos, António Alves explicou que “antes havia períodos em que se trabalhava muito bem, por exemplo, na Páscoa, no Natal e nas comunhões, no caso da parte juvenil”. Confessa ainda que, se há uns anos a semana do Natal era quando se faturava mais, hoje não se pode dizer o mesmo, porque “agora é tudo muito incerto”.

A Sapataria Caravela vende, sobretudo, produtos fabricados em Portugal e são as pessoas de meia idade os melhores clientes.

 

Problemas na Baixa têm vindo a agravar-se

 

Na opinião de António Alves tem-se verificado fraca afluência na Baixa e, segundo o mesmo, esta diminuição de visitantes e clientes deve-se, principalmente, à falta de lugares para estacionamento. Assim, a população acaba por se dirigir aos grandes centros comerciais, onde não têm que lidar com alterações atmosféricas e têm estacionamento no interior, além de ser gratuito, para uso por tempo indeterminado.

“Aquilo é uma maravilha”, sublinha.

O lojista considera que o “desinteresse total da autarquia pela Baixa citadina”, que “já se vem a arrastar desde há uns anos para cá”, está também na base do problema pelo qual a maioria dos estabelecimentos de comércio tradicional está a passar.

A Baixa de Coimbra está rodeada de paragens de autocarro mas, de acordo com António, há poucos transportes públicos, principalmente aos fins de semana, dias de descanso e lazer para grande parte dos cidadãos. O comerciante explicou ao Despertar que, mesmo durante a semana, há poucos transportes e que “parece que ao fim de semana e  aos feriados ainda diminuem mais a quantidade” e que, por esse motivo, as pessoas “optam mesmo por ir para outros sítios ou por nem sair de casa. Logicamente deixam de vir para a Baixa”.

Embora o edifício da Câmara Municipal de Coimbra se localize na Praça 8 de maio, um local emblemático da Baixa citadina, o que sempre fez com que muita gente, que precisava de tratar de alguns assuntos, se deslocasse à Baixa, já não exerce o mesmo efeito, uma vez que, atualmente, qualquer assunto relacionado com a Câmara deve ser tratado no Mercado Municipal D. Pedro V.

Dessa forma, as pessoas estacionam ou saem do autocarro na zona mesmo em frente ao Mercado, não sendo necessária a passagem pela Baixa, o que origina menor afluência, piorando ainda mais a situação.

O comerciante considera que a mudança do local de tratamento de assuntos variados “foi mais um tiro no pé que a Câmara Municipal deu”.

Numa pequena volta pelas ruas da Baixa, é possível perceber que muitos estabelecimentos se encontram encerrados, com papel de jornais antigos nas vitrines e com placas a dizer “arrenda-se”, “vende-se” ou “trespassa-se”. Questionado pel’O Despertar acerca deste assunto e das causas que, ultimamente, têm levado ao “fechar de portas” de muitas lojas, António Alves não perde tempo, respondendo que as rendas “são elevadíssimas” e que “é impossível pagar uma renda de mil e tal euros” todos os meses. Para dar a volta à situação devia haver lojas mais atrativas como “uma Zara. Se houvesse aqui a Zara, as pessoas vinham cá e aproveitavam para passear pelas restantes ruas, e até mesmo para entrar nas lojinhas pelas quais vão passando”. Mas, assim não sendo, o comerciante confessa que “há cada vez menos oferta e menos procura também”.

Apesar das dificuldades que se têm feito sentir no comércio tradicional da Baixa, o lojista e os restantes colegas optam por manter a loja em funcionamento, mas nem o facto de a sapataria estar situada numa rua com ligação direta para a Rua Visconde da Luz, uma das mais icónicas da Baixa, faz com que o negócio corra melhor, “porque isto está mesmo muito mau”.

O estabelecimento funciona de segunda a sexta, das 9h00 às 19h00, e ao sábado, até às 13h00. Aos domingos encerra para descanso do pessoal. Quanto aos feriados, os únicos do ano em que os funcionários trabalham são os dias 1 e 8 de dezembro, por serem na altura do Natal e “haver mais gente nas ruas da Baixa”, acabando por compensar manter portas abertas nesses dias de maior movimento.

 

Será a Baixa um lugar inseguro?

 

Muitos dos comerciantes e indivíduos que frequentam regularmente a Baixa de Coimbra consideram que o local tem vindo a tornar-se, nos últimos tempos, um sítio “bastante” perigoso.

António Alves não partilha da mesma opinião, explicando que ninguém faz mal a ninguém. No entanto, mostra-se descontente com o desmantelamento da brigada de intervenção rápida. Neste momento, não há vigilância na Baixa e, de acordo com o comerciante, “era uma brigada que marcava posição e, mesmo assim, não era necessário fazerem-se valer da farda. Estavam sempre presentes”.

“Eu não considero a Baixa insegura, mas eles eram fundamentais aqui. Até já foi feita uma petição para eles voltarem”, revela.

Rumo do negócio

 

Apesar de adorar a sua profissão e de exercê-la há mais de três décadas, António Alves não vê forma de a situação na Baixa melhorar, pelo menos rapidamente.

O comerciante acaba mesmo por comparar o negócio da Sapataria Caravela com o famoso Titanic, navio que efetuava uma viagem entre os Estados Unidos da América e Inglaterra quando naufragou, após um embate num iceberg, há mais de 100 anos. Foi o maior e mais conhecido naufrágio da história.

O Despertar quis saber se António acha que há forma de recuperar o negócio. Este respondeu de forma curta e sem qualquer hesitação, explicando que “não. O Titanic também não foi recuperado. Portanto não me parece que haja muito por onde fugir”.


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