Agosto é tempo de férias. É também tempo de calor. Aqui, neste rincão profundo da Beira Baixa não se vê vivalma. Apenas esporadicamente alguns carros de matrícula francesa se cruzam comigo na estrada, lotados de gente que maioritariamente fala um francês emprestado, e que no curto ciclo de trinta dias tentam mitigar a palavra saudade e mostrar aos demais que a vida lhes correu de feição. Um dia partiram, levando na mala a esperança de melhores ventos, já que o futuro na terra que lhes serviu de berço se mostrava incerto.
Percorro agora a estreita fita de estrada alcatroada que me leva a Freixial do Campo, pequena aldeia beirã de ruas acanhadas e casas escuras. De um lado e do outro, campos de cultivo. A sensivelmente meio do percurso, passo no “cimo do povo” de Juncal do Campo e do lado esquerdo da estrada a taberna do “Real”. O estabelecimento está fechado. As portadas verdes– um verde desmaiado pela inclemência do sol e do tempo há muito que encerraram.
Da taberna do “Real” quantas recordações. Era o local de convívio dos Juncalenses. Ao fim do dia, ao fim da jorna, ali se juntavam. E ao domingo, o “Real” não fechava as portas. A casa era um salão amplo, com chão em cimento e uma pequena lâmpada que ajudava a amenizar a escuridão em dias de Inverno. Várias mesas e cadeiras compunham o cenário. Do lado direito um balcão corrido, onde invariavelmente se encontravam alguns jornais de dias há muito passados. Nas mesas, dois tabuleiros do jogo das “damas” gastos pelo tempo e vários baralhos de cartas enegrecidos pelo uso, que aos domingos não tinham sossego nas mãos dos jogadores.
Do lado de lá do balcão, um homem de compleição avantajada. Movia-se com dificuldade, apoiado numa bengala. Era o “Real”. António Dias da Costa de seu verdadeiro nome. Por vezes, os fregueses pediam um petisco. Era então que o António Vaz e a Ilda que ali trabalhavam, traziam uma enorme malga com tomates, atum e cebola à mistura, tudo regado com o bom azeite vindo do lagar de Juncal do Campo. O vinho, encorpado a deixar “rasto” no fundo do copo, completava o petisco.
Depois, com cada um a “picar” com o garfo, comiam todos da mesma malga. E começava o rosário de recordações. Do tempo da ceifa. Do tempo em que trabalhavam como ceifeiros na planície alcainense, ganhando o “quinto”. Era um trabalho duro. De sol a sol. No mês de Junho, quando os dias não tinham fim e os corpos se derretiam a suar em bica a ceifar e depois a atar as “paveias” de centeio ou de trigo. Apenas a sombra de alguma árvore lhes servia de alívio, enquanto comiam a frugal merenda, com os instrumentos de trabalho – a foice e o mangual – de lado. Recordavam alguns elementos da “camarada”: o Daniel, o Joaquim Tavares, a Lurdes Monteiro, o Zé Santos e muitos outros. A água fresca bebida da bilha em goladas, ajudava a preencher os estômagos vazios, que reclamavam por melhor refeição face ao esforço despendido. Aos domingos, o almoço era um pouco melhorado, pois os patrões ofereciam queijo de ovelha, presunto e vinho à descrição.
E assim se passavam os domingos em Juncal do Campo, na taberna do “Real”. Se Fernando Namora ali estivesse, sentado à mesa a fazer “sociedade”, como diz este bom povo beirão, diria certamente que aquelas recordações dos ceifeiros das planícies de Alcains dariam azo a uma boa hora de cogitações. No seu dizer, seria como atirar uma pedra a um lago adormecido. E eu, que frequentemente ali passo, não posso deixar de olhar aquelas portas já invadidas pelas ervas daninhas, que a máquina do tempo se encarregará de triturar.
Algumas vezes assisti àqueles convívios e diálogos. E agora, infelizmente, enquanto vou vendo encerradas para sempre as portas da taberna do “Real”, já só me restam as minhas infindáveis memórias…