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António Inácio Nogueira

Castanhas dos Meus Sonhos

18 de Outubro 2024

TESTEMUNHOS

Sonhei toda a noite com castanhas. Porventura por ser o tempo delas. A minha memória sonhada voltou para tempos atrás e focou – se nas minhas reminiscências.

Vivi a minha juventude numa região de soutos e castanheiros.

Olhava a sua evolução e o seu crescimento. Acompanhava a sua floração (que árvore bonita!) até à fase dos ouriços pendentes nas suas ramagens, de onde brotavam as belas castanhas. Quando não repousavam no solo, no momento requerido, tocavam-se os ouriços com um pau. Elas, sem remédio, doridas, alcançavam o chão e eu apanhava.

Esta descrição assomou bem clara no sonho, pois era assim o procedimento quando o grupo de rapazes da mesma turma do Liceu se dirigia aos soutos existentes entre a cidade da Guarda e a respectiva Estação de Caminho de Ferro. Escolhido o local, apanhávamos as castanhas já caídas, quase sempre em grande quantidade, e espalhavam-se pelo chão. De seguida metíamos uma camada de caruma por cima. Depois deitávamos o fogo, e passado um tempo determinado, que nós bem sabíamos qual era, iam-se tirando as castanhas em redor com uma pequena varinha.

Comíamos, com sofreguidão, dançávamos à volta embalados pelo garrafão de jeropiga que havíamos transportado.

O segundo episódio que me veio a lume, nesse longo sonho, passava-se em casa da minha avó. O assar de castanhas, na sua lareira de pedra em Amoreiras do Mondego, também tinha o seu ritual inesquecível.

A avó tinha um «caldeiro» bem largo, feito pelo meu avô, que por baixo era esburacado. O caldeirão dependurava-se na «trempe» e ficava à distância adequada das chamas para não queimar as castanhas que aí tinham sido depositadas. Quando a primeira castanha rebentava (pois tinha ido inteira para o caldeirão e não retalhada, como é usual) era sinal de que as outras achavam-se quase assadas. Mais 5 minutos e já estavam… as castanhas eram acompanhados com figos secos e nozes e pela óptima jeropiga que o meu avo fazia.

A terceira parte do meu enlevado sonho recordou, com saudades infindas, as castanhas cozidas com ervas, que a minha mãe fazia. Como eu gostava daquelas castanhas!

A última parte do sonho foi a que mais me entusiasmou. As celebrações do dia de S. Martinho na adega do meu avô.

A celebração com que sonhei está ligada a uma lenda, que todos contavam na aldeia das Amoreiras, associada a um soldado romano de nome Martinho de Tours (mais tarde conhecido como São Martinho). Dizia a lenda que, ao passar a cavalo por um mendigo quase nu, cortou a sua capa ao meio com a sua espada e deu metade ao pobre; estava um dia chuvoso e frio e, comunica ainda a lenda que, neste preciso momento, parou de chover, resultando daí a expressão “Verão de São Martinho”.

Martinho morreu no dia 8 de Novembro de 397, em Candes, e foi sepultado a 11 de Novembro em Tours, local de peregrinação desde o século V até hoje.

É precisamente na data do seu enterro que se comemora o dia que lhe é dedicado, acreditando-se que o Verão de São Martinho a ele se deve porque, na véspera e nos dias 10 e 11 de Novembro é habitual o tempo melhorar e o Sol aparecer por detrás das nuvens.

Pois é verdade, no dia das celebrações na adega do meu avô, visualizei no sonho, um dia de sol pleno.

Na adega, onde se passava o episódio, havia um pipo pequeno cujo vinho era muito clarinho e pouco alcoólico, designado vulgarmente por «água-pé», a que o meu avô dava o nome de vinho «palhete». Este «pipinho», como ele, carinhosamente o designava, era aberto no dia de S. Martinho. À sua roda estavam alguns amigos e familiares, só homens.

Esse «pipinho» era então aberto e todos provavam. Era o cerimonial principal. Depois havia castanhas, figos secos, chouriça e presunto, queijo da serra, e pão preto, cozido no forno do quintal. Todos traziam qualquer coisa para o repasto que se prolongava pela tarde adiante.

Assisti enquanto jovem a todos estes cerimoniais.

Quando acordei não tinha nada, tudo se havia esfumado. Nem castanhas.


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