9 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

Cada coisa é o que é

30 de Janeiro 2026

“O que for, quando for, é que será o que é” (Alberto Caeiro). Cada coisa é o que é e nem sempre o que aparenta ser. Tudo o que existe tem um modo de ser específico enquanto é em si o que realmente é. O princípio lógico da identidade aplica-se neste contexto ontológico e epistemológico porquanto o conhecimento do real exige que se ultrapasse a aparência das coisas, o modo como se nos mostram, para descobrir o que por detrás dela se oculta. Poucas coisas são como parecem ser e este preceito deve ter-se em conta quando cientificamente se pretende descobrir o fundamento dos fenómenos, a causa e constituição, a sua estrutura básica que determina o que são e como essencialmente se produzem. Ver e olhar são, por isso, incomparáveis, pois o simples “olhar” apenas descobre o que as coisas aparentam ser enquanto o “ver” penetra na realidade profunda e desconhecida de tudo o que existe, na Terra e nos Céus. A admiração que temos pelo Universo advém da certeza, exatidão e rigor com que nele os fenómenos se processam e sabemos, então, que nele tudo está certo porque nele tudo é real (Alberto Caeiro). O trabalho dos cientistas ao longo dos últimos séculos tem sido exatamente o de desvendar os segredos ocultos do mundo, observando primeiro o que acontece e tentando “ver” com profundidade e através de métodos científicos os processos intrínsecos aos fenómenos, que permitem explicá-los na sua realidade. É real o que está latente a tudo o que aí se manifesta, patenteando-se. “Cada coisa é o que é”. Quantas desilusões há quando aplicamos este princípio aos relacionamentos humanos: muitas pessoas aparentam aos outros uma forma de ser que difere do que realmente são, pois adaptam, como camaleões, a sua personalidade ou forma de ser ao que pensam que os outros querem que sejam ou de acordo com o que desejam que os outros pensem que são. Mostram aos outros não o que são, mas simplesmente o que vão sendo para eles. Quanta hipocrisia e falsas qualidades, apreciadas socialmente, escondem uma realidade diferente, a do que cada um é em si. Pois “quem vê caras não vê corações” e poucos na sociedade são o que aparentam ser até porque há uma existência íntima incomunicável, expressa em desejos, sentimentos e pensamentos que se ocultam dos outros com quem nos cruzamos diariamente. São indizíveis e social e materialmente inexpressáveis (S. Kierkegaard). Quantas desilusões e desenganos quando alguém que se julga conhecer se mostra quem realmente é, nos seus pensamentos, sentimentos e comportamentos e atitudes. Falsas amizades e amores que na ilusão se têm mantido, porque provavelmente nunca se conhece verdadeiramente alguém. Uma certeza indubitável é que as aparências iludem e é nesta expressão que se popularizou que devemos refletir se queremos conhecer as coisas/pessoas tal como são em si mesmas. Ela deve servir de orientação na escolha daqueles com quem queremos viver e conviver. Deve servir de guia na ciência se queremos descobrir o que de real se esconde por detrás do determinismo das causas e efeitos nos acontecimentos do Cosmos, para não “tomar a nuvem por Juno”. Segundo A. Schopenhauer, “a descoberta da verdade (do real) é impedida (…) pela opinião preconcebida e pelo preconceito”. Infelizmente vive-se atualmente em plena cultura da aparência, pois “o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo (e o caráter) e a missa mais do que Deus” (Eduardo Galeano).


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