23 de Junho de 2021 | Coimbra
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MANUEL BONTEMPO

As tertúlias

16 de Novembro 2018

O homem sempre foi um bicho complicado mas teve necessidade de exercícios vagamente verbais à mesa do café, de sair de si mesmo, de encontrar-se algures com o confrade, o correligionário, o colega na originalidade ou na inteligibilidade, ou ainda na coerência, na lógica, na mera narrativa, na confissão do pensamento ou nos disparates sentidos pela política imposta a todos que pensam pela sua cabeça!

A tertúlia que se viveu há anos em Coimbra impessoal mas vertical integrava-se numa coletividade cultural, privilégio de um direito adquirido mesmo quando a “censura” vigiava os passos dos amantes da liberdade.

Foi o tempo de Zeca Afonso, Mário Temido, Aurélio Berardo, Hébil, Mário Campos, Assis Pacheco, Orlando Carvalho, Amâncio Frias, Pato e Sertório, os Vilaça, gente de várias procedências, advogados, médicos, professores, bancários, empregados do comércio, tipógrafos, jornalistas e escritores, o que havia nessa altura, a verdadeira essência das velhas tertúlias hoje reduzidas à sua expressão mais simples.

Havia nessa gente uma espécie de instinto de defesa, de estar vivo, em que todos procuravam ser integrados pela palavra, pela ideia, pelo livro ou quadro, ou, simplesmente pelo grito de revolta contra a ditadura feroz e despersonalizante.

Depois o café era vigiado pelos “bufos”!

A tertúlia nesse tempo foi um bálsamo contra o isolamento que tendia quase sempre para a neurastenia em muitos correligionários!

O encontro à mesa do café é uma satisfação fisiológica e o ensejo na troca de conceitos, de pontos de vista, nas coisas banais ou na pujança dos juízos.

Havia há anos a apetência do diálogo, como coisa quase biológica, febril, e tomou culminâncias de uma atividade psíquica coletiva.

Hoje o tempo mais veloz e com outros comportamentos cívicos mas a luta mantém-se contra eventuais “ditaduras”, “censura”, mas estar à mesa do café é uma espécie de conaturalidade, de criar amizade, de defender o burgo, de tecer crítica ou louvar tem quase as mesmas substâncias orgânicas segregadas por todos os órgãos vitais.

É certo nesta vida apressada e desconfiada e opressora a tertúlia quase não existe.

Há fatores neutralizantes que invalidam o “encontro” a nível superior e a força emotiva dum ideal, a “charla” é uma mera subserviência do mercantilismo e da dialética materialista.

O homem por vezes não se preocupa com o “todo”, o local, a aldeia, a cidade, a região.

E por vezes nesse egoísmo e narcisismo embaraça a liberdade decompondo e recompondo de ideias erróneas que levam à derrota do bairrismo numa patológica ou desordem dispersa que obedece servilmente ao seu instinto de nada fazer!

E a verdade, o rigor da liberdade, a luta pela dignidade do ser humano levou à prisão alguns comparsas de então, dr. Mário Temido, Euclides Cunha, o jornalista Mário Campos e outros, cujo crime foi o desassombro de fazer frente ao sinistro fascismo!…


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