Entendeu o nosso primeiro ministro, António Costa, integrar a Comissão de Honra da recandidatura de Luís Filipe Vieira a presidente do Benfica. Uma proposta legal de Vieira e uma escolha livre de Costa, onde ambos se deixaram levar, certamente, pelo seu clubismo.
Não quero acreditar que na escolha tenha pesado o eleitoralismo de Costa, cavalgando a onda da suposta maioria social do SLB, ou a necessidade presidencialista de Vieira se eternizar “à Pinto da Costa” na liderança de um clube, numa fase em que anda aflito com a gestão da sua vida empresarial e associado a criminalidades várias.
O caso serve, na verdade, de excelente exemplo de como a política e o futebol andam de mãos dadas, abrindo espaço para múltiplas interrogações que se estendem a um promíscuo universo onde se cruzam poderes, ambições e dinheiro, muito dinheiro.
É curioso como Costa, um político discreto e hábil, aceitou tal convite, esquecendo-se das implicações da sua decisão: um primeiro ministro é livre de ter um clube, como qualquer cidadão, mas integrar comissão de honra de LFV passou a mensagem – muito traiçoeira, diga-se – da preferência sobre um clube em relação aos demais, abrindo espaço – perigosíssimo – à especulação. E isso é mau, muito mau, para a democracia em geral e para a democracia do futebol, em particular.
Pergunta-se, neste cenário, se Costa aceitaria integrar todas as comissões de honra de candidatos a outros clubes, ou por que razão não aceitou convites anteriormente feitos por outras instituições desportivas.
Há aqui um evidente problema de ética política, que mostra como Costa é muito bom na governação da generalidade, mas se perde, facilmente, em matérias de especialidade.
Como cidadão espero um primeiro ministro de todos e não de alguns, seja em que domínio de atividade for. E creio que foi esse puxão de orelhas que o nosso atento Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sentiu necessidade de lhe dar. Com redobrada força, digo eu – e sem selfies pelo meio.
