Num país em que o Estado gasta 123 mil milhões de euros por ano e cobra quase o
mesmo em impostos, a proposta de Orçamento do Estado é um dos principais
documentos económicos que tem de ser discutido. No entanto, nos últimos anos, não
tem sido bem assim. O novo regime orçamental Centeno-António Costa, como uma vez
lhe chamei, incluía medidas de despesa pública que, depois de serem aprovadas no
Parlamento, não eram executadas. As discussões sobre o investimento público no
Orçamento tornavam-se assim esotéricas. Estava-se a do máximo que o Estado ia
investir, mas quando iria de facto investir era uma incógnita só revelada no fim do ano
com os números da execução orçamental. O Orçamento para 2024 tem um lado
positivo; porque há pouco sobre o investimento público, evita-se a farsa anual de
discutir o que provavelmente não ia acontecer.
Em termos concretos, há outras novidades positivas. A principal é a confirmação de
que o PS é um partido em que os portugueses podem confiar para gerir com rigor as
contas do Estado. O espectro de 2010 está afastado. O excedente da receita sobre a
despesa deve ser 0,2% e as previsões macroeconómicas do documento são sensatas e
realistas. Portugal deverá chegar ao fim do ano com a dívida pública ligeiramente
abaixo dos 100% do PIB. É uma enorme conquista dos governos de António Costa, pela
qual ele merece todo o mérito.
A segunda boa novidade é a descida da IRS, quer pela atualização dos escalões, quer
pela descida da taxa sobre os cinco escalões mais baixos. Como uma sondagem
publicada recentemente que mostrava claramente, era a grande prioridade para a larga
maioria dos portugueses. Ter um Governo que responde ao que os cidadãos querem é
sempre boa notícia.
Também positiva é a eliminação do IVA zero, uma medida que nunca fez grande
sentido, e que custava imenso dinheiro. O aumento ou a reforma de outras
compensações sociais, como o abono das famílias ou o complemento solidário dos
idosos, são bem mais sensatas, mais eficazes, e custam menos.
Um quarto ponto positivo diz respeito ao salário mínimo nacional e às pensões.
Consistentemente, todos os anos, os Governos de António Costa favorecem estes dois
grupos. Pensionistas e os trabalhadores mais pobres são sempre os que mais ganham ou
menos sofrem na sua relação com o Estado. Há dois anos, houve uma exceção esdrúxula
quando o Governo adiou durante muitos meses a atualização do valor das pensões em
linha com a inflação, violando claramente o espírito (se não mesmo a letra) da lei de
bases das pensões. Este Orçamento prevê um aumento da despesa com as pensões em
6,2%, em linha com o que devia ser a atualização prevista na lei. Cumprir o que está
prometido é positivo.
Por fim a devolução das propinas aos jovens que fiquem a trabalhar em, Portugal,
assim como a redução do IRS que eles pagam durante os primeiros anos em Portugal (o
IRS Jovem) são também boas medidas. Um Orçamento é uma escolha inevitável entre
grupos privilegiar. Os jovens (que ainda não emigraram) são quem tem mais razões de
queixa dos Governos do PS nos últimos, oito anos, quer por terem mantido dois
ministro da Educação que destruíram o ensino público, quer pela falta de reformas
estruturais que contribuíram para que quem entrou no mercado de trabalho teve
empregos incertos e mal pagos. Dar-lhes algo pela via fiscal é pouco, mas pelo menos é
alguma coisa.
Negativo no Orçamento são as (pequenas) mudanças no IRC. Mantêm-se a proliferação
de regimes extraordinários, desde o apoio aos gastos energéticos ou à silvicultura, que
implicam que Portugal tenha as taxas de IRC mais altas da Europa e, ao mesmo tempo,
pouca receita. O principal resultado é desviar a atenção dos empresários para a gestão
da complexidade fiscal em vez da inovação ou da competitividade. Por sua vez,
mantém-se a progressividade do IRC, que desincentiva a criação de grandes empresas
num país em que elas são raras. Por fim, o Orçamento ignora as propostas das
associações empresariais, como o BRP, para que o Estado pague aos fornecedores a
tempo ou reembolse o que retém em excesso.
Sendi talvez um dos melhores Orçamentos apresentados por António Costa, ele
continua a partilhar as três principais traves-mestras dos seus Governos. Se a economia
é um bolo, o Orçamento garante que o Estado não tenta comer mais do que a sua fatia,
hipotecando bolos futuros. Ele reparte o bolo e acordo com os desejos atuais do seu
eleitorado. E faz quase nada, nem em concreto nem sequer em intenção, para aumentar
o tamanho do bolo.