9 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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Orlando Fernandes

A SEMANA POLÍTICA: IMPUNIDADE DE RUBIALES

8 de Setembro 2023

Regresso de férias com o beijo que Rubiales deu a Jenni Hermoso depois da vitória de Espanha no Campeonato Mundial de Futebol.

Um homem, em frente às televisões do mundo, dizendo a uma mulher – na verdade, a todas – uma mensagem singela: podes estar no momento mais alto e cintilante da tua carreira, podes ter tido um retumbante sucesso, toda a gente te está a aplaudir e celebrar que, ainda assim, continuas uma coisa, um objeto de que os homens dispõem como lhes apetece. Um homem pondo no lugar uma mulher – na verdade, todas – que alcançara um enorme e feliz feito profissional e pessoal. Para, não nos esquecermos que, por muito sucesso, dinheiro, visibilidade, fama, admiração, talento e resultados tenhamos, continuamos submetidas aos devaneios e vontades dos homens.

Este caso de assédio sexual do presidente de uma organização a uma mulher que desenvolve a sua profissão dependente dessa organização é sintomático. Não só pela falta de vergonha de Rubiales de o fazer – e à frente dos olhos do mundo. Não só pela absoluta convicção de impunidade. Também: o que seguiu mostrou os padrões de perseguição de quem é assediado acaso ouse defender-se e, igualmente, como tantos correm a apoiar o assediador. Mesmo quando, é o caso, há imagens e nos solicitam que acreditemos na versão de um homem ao invés de nos nossos olhos.

A partir do momento em que Jenni Hermoso afirmou que o beijo não foi consentido, e era pressionada para dizer que fora -e, entendamo-nos, exceto se Hermoso e Rubiales tivessem uma relação assumida ou que quisessem ambos assumir, nunca poderia haver consentimento (nem presunção de) para aquele beijo -, sucederam de Rubiales e da Real Federación Española de Fútebol (RFEF) ataques declarados à jogadora. Houve comunicados da RFEF (entretanto desparecidos) publicamente apoiando Rubiales difamando Hermoso, quase dando-a como quem de facto havia assediado o seu chefe e até manipulado imagens que alegadamente mostrariam consentimento.

Não mostravam consentimento nenhum, afinal uma mulher abraça um homem numa celebração não é consentimento para nada se não para o abraço. Porém revelou a mentira descarada a que a RFEF estava disposta para defender um assédio. Houve uma conferência repleta de poderosos do futebol espanhol – os dois selecionadores, das equipas feminina e masculina, lá no meio…aplaudindo de pé mentiras, pressões e ameaças. Com mulheres obrigadas a estar na primeira fila, à laia de instrumentos para descredibilizar outra mulher. E relambórios vindo do assediador sobre “falso feminismo” – que o verdadeiro é o que não incomoda homens nem confronta assediadores, claro. A lata é infinita.

Uns poucos homens do futebol espanhol criticaram o comportamento de Rubiales. A maioria esperou cobardemente para ver para que lado cairia o resultado. Incluindo, sem réstia de vergonha, os dois selecionadores que começaram por aplaudir Rubiales para, após a suspensão da FIFA, se revelarem muito condoídos e perplexos com o assédio.

Houve aproveitamentos políticos. Para Irene Monteiro, ministra da Igualdade, trata-se de um caso de violência sexual. É a desajuda do costume de igualar o apalpão, o beijo, o encosto a uma violação ou abuso sexual. Anulam-se gradações. Ou não é nada ou, se é, é tudo igualmente apocaliticamente grave. A opressão e discriminarão de mulheres têm muitas formas e não precisam de ser violência sexual para ter gravidade e ser crime, em alguns casos. Isto vindo de uma ministra que criou a calamitosa lei Solo Si Es Si, que baixou as penas a mais de 900 agressores sexuais e libertou 104 efetivamente presos.

Por cá o candidato da IL, à Câmara de Lisboa, Bruno Horta Soares, também se pronunciou no Twitter, implicitamente defendendo Rubiales. E garantindo que o desporto feminino não é feminista, Perdoai-lhes, Senhor, que ele não sabe o que diz nem nunca pôs os olhos (ou o cérebro) na história do desporto feminino e na sua ligação ao movimento feminista e à emancipação das mulheres. Enfim, foi a IL, que amiúde tem de se disfarçar de progressista, assinalando à sua base eleitoral (maioritariamente masculina) que nos direitos das mulheres defende o mais cristalino machismo. Nada temam. O resto são papas e bolos.

O futebol feminino tem uma história atribulada e que chocou sempre com o statu quo machista. Estes dias, nas redes sociais, o contingente troglodita pediu para o futebol voltar a ser só jogado por homens e não por mulheres. Ignorantes, não sabem que durante a Primeira Guerra Mundial, a partir de1917, por escassez de jogadores masculinos, no Reino Unido se popularizou o futebol feminino. As disputas entre as várias equipas eram vistas por dezenas de milhares de adeptos. Depois da guerra e do regresso dos jogadores masculinos, o futebol feminino continuou tão popular (mais do que o masculino) que a Football Association teve de proteger a hierarquia entre os sexos: baniu em 1921 o futebol feminino.

E o que sobra para nós aqui em Portugal desde assédio Rubiales? Sobra que também o nosso futebol tresanda a machismo, Ronaldo, Rúben Neves e outros estão a ajudar a Arábia Saudita a lavar um regime que é um inferno ardente para as mulheres. E se esforça por exportar o wahabismo ultraconservador, com a sua supremacia machista, para a Europa.

Para celebrar o Mundial de Futebol Feminino, O BPI fez um anúncio com a horripilante história de um pai desiludido por ter uma filha ao invés de um filho. E só se reconciliou com o facto, depois de maus-tratos emocionais abundantes avistados naqueles poucos segundos de publicidade, porque a miúda jogava bem futebol. Se fosse inclinada para o violino permaneceria sem o amor paterno.

O apoio do Governo e da FPF ao Mundial do Qatar foi de fazer de corar de vergonha alheia Poderão elencar mais exemplos, mas falta-me espaço.

Em suma. O assédio de Rubiales proteção institucional. Só não foi eficaz devido à opinião pública, de resto internacional. (Os políticos espanhóis limitaram-se a seguir as inclinações dos eleitores.) Ainda assim, muitos homens além de Rubiales acreditaram que seria suficiente. A mulher que se calou (como devia) foi perseguida. O caldo machista do futebol usualmente passa, dos dois dados do Caia, com a maior das complacências – enquanto cidadãos, eleitores, consumidores.

 


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