9 de Fevereiro de 2026 | Coimbra
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Orlando Fernandes

A SEMANA POLÍTICA: A PONDERAÇÃO DOS JOVENS

13 de Outubro 2023

Terça-feira, jovens rebeldes atiraram tinta verde contra o ministro do Ambiente e da Ação Climática. Já muito foi dito e escrito a propósito desta forma de protesto que ameaça virar moda. Junto-me ao coro dos que se indignam com agressões, mas sejamos honestos não podemos, à segunda, quarta e sexta-feira, dizer que vivemos numa situação de emergência climática e que o mundo vai torrar em cinco anos e, à terça, quinta e sábado, aproveitemos o domingo para nos perguntarmos, se somos coerentes.

Há dois anos, num discurso sobre o aquecimento global, António Guterres disse que o mundo estava à beira abismo. O secretário-geral da ONU explicou que o abismo aconteceria quando a temperatura global subisse um grau e meio em relação aos tempos pré-industriais, para logo os assustar com um facto: em 2022, já tinha subido 1,2 graus. Se há três anos estávamos à curta distância e 0,3 graus do precipício, nem quero imaginar em 2023, depois de tantos recordes de temperatura batidos.

Na semana passada, o mesmo Guterres, na abertura da Cimeira da Ambição Climática em Nova Iorque, disse – e cito – “A Humanidade abriu os portões do inferno. Um Calor horrendo tem efeitos horrendo, os agricultores angustiados veem as suas colheitas serem levadas pelas; cheias: temperaturas sufocantes que causa doenças; milhares fogem em pânico dos históricos incêndios que alastram. A ação climática é diminuta por comparação com o desafio. Se nada mudar, caminhamos para um aumento de temperatura de 2,8 graus – rumo a um mundo perigoso e instável”.

No primeiro discurso, o abismo acontecia quando a temperatura subisse 1,5 graus; no segundo discurso, já vivemos as sete pragas do Egito e caminhamos para um aumento de quase o dobro.

Isto não é um discurso que tenha saído da boca para fora, num momento de algum excesso de emotividade. É consistente. Em 2022, o mesmo Guterres, em reação a um relatório o IPCC – Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas – sobre emissões de carbono, alertava para a possibilidade de o mundo se tornar inabitável. Cito novamente: “Caminhamos rapidamente par um desastre climático: grandes cidades submersas; ondas de calor sem precedentes, tempestades aterrorizantes; escassez generalizada de água; extinção de milhões de espécies de plantas e animais.”

E, para quem acha que se trata de um exagero retórico, Guterres acrescentou: “Isto não é ficção o exagero; é o que a ciência diz que resultará das nossas políticas energéticas atuais. Seguimos uma trajetória para o aquecimento global e mais do que o dobro do limite de 1,5 graus acordado em Paris (…) Cientistas climáticos alertam de que estamos perigosamente perto de pontos de inflexão que levarão a impactos climáticos em casata irreversíveis.”

Podia continuar este artigo com um sem fim de citações literalmente anunciando o fim do, muno. E não é apenas António Guterres. Muitos líderes políticos têm discurso semelhante e os painéis de cientistas climáticos repetem-no à exaustão.

Quem condena as jovens está, na verdade, a dizer que não acredita nos alertas que lê e ouve. O que não tem mal nenhum. Podemos acreditas em coisas diferentes. Mas tenho a sensação que a maioria é hipócrita. Ao mesmo tempo que finge acreditar no discurso alarmista sobre o clima, muitas vezes adotando-o como seu, pede aos ativistas do clima moderação.

Não. É hipocrisia a mais. Se queremos ações ponderadas, temos de ter um discurso ponderado. Esperar racionalidade depois de lançarmos o pânico é uma contradição nos termos. Se adotamos um discurso apocalíptico, não nos queixemos depois de ter jovens que sofrem de ansiedade ambiental. Bem sei que esta ideia de alguém sofrer de ansiedade ambiental parece ridícula – pelo menos, a mim parece – mas é, na verdade, um problema de saúde mental já identificado pela APA (Associação de Psicólogos Americanos). A ecoansiedade é um medo crónico do desastre ambiental. Num inquérito feito pela APA, conclui-se que metade dos jovens sentem no dia a dia o stresse das alterações climáticas. O discurso catastrofista sobre o clima é uma máquina massiva de gerar jovens ecoansiosos.

Não há meio-termo, se levamos a sério o anunciado inferno, então está na altura de, no mínimo, triplicar os impostos sobre produtos poluentes, como os combustíveis, e fechar várias atividades económicas poluentes. No mínimo, restringir fortemente o turismo e tudo o que envolva transporte de mercadorias.

Perante o cataclismo que anunciamos às segundas, quartas e sextas, não vejo como condenar as jovens que atiram umas bolas de tinta ao ministro. Não podemos pôr o ónus da razoabilidade em quem não tem o cérebro totalmente desenvolvido. Pelo contrário, a única crítica a fazer-lhes é serem tão mansas enquanto, nós os adultos, lhe esturricamos o mundo.

Em alternativa, podemos tratar o aquecimento global como um problema que tem de ser combatido racionalmente.

 

 

 


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