“É esta a minha noção de cultura: tornar melhor a vida das pessoas. Começar pela alimentação, pelo vestuário, pela saúde, pelo ensino.”
Agostinho da Silva
Não há humanidade sem aprendizagem cultural (F. Savater), de tal modo o Homem depende da cultura que ele próprio produz como agente criador. Numa definição genérica, pode-se afirmar que a cultura é tudo o que o Homem acrescenta à natureza e que molda o ser humano para além do seu ser natural e instintivo. Daí a atual definição de Homem, que traduz a sua complexa constituição, como ser bio-psico-sócio-cultural. O mundo cultural, o mundo humano, manifesta-se nos variados utensílios criados e que facilitam a vida humana, tornando-a mais cómoda, mas igualmente em crenças religiosas, valores e normas, regras de convivência e relacionamento interpessoal e formas de expressão artística e desportiva. As próprias formas de organização sócio-política e económica das sociedades, desde o trabalho à educação, é cultura. Esta esclarece e molda os modos de ser e agir humanos. Mas a cultura não deve sintetizar-se apenas nestas formas de expressão, mas, fruto da racionalidade e inventividade humanas, tem o dever de proporcionar um mundo melhor aos mais desfavorecidos. Dá-se muita importância à cultura de entretenimento, nomeadamente à artística e às diversas manifestações históricas do mundo cultural, que podem ser apreciadas em museus. Este tipo de cultura é inexpressivo a partir do momento em que não resolve os problemas essenciais da humanidade, sobretudo dos países em vias de desenvolvimento, como a pobreza, a fome, a mortalidade infantil pela falta de cuidados de saúde e higiene, a dificuldade em aceder à educação. Só por exemplo, entretanto vamo-nos divertindo, assistindo a peças de teatro e visualizando filmes, vamos visitando exposições em museus, a que nem todos têm acesso por dificuldades monetárias (basta conhecer os preços exigidos para visitar os museus e assistir a peças de teatro ou ir ao cinema). Todas as expressões artísticas são pouco significativas e inexpressivas quando se permite que seres humanos vivam gradualmente degradando a sua dignidade humana e morram à fome num mundo de abundância e riquezas mal distribuídas. Também as religiões e as crenças, como produtos culturais, pouco ou nada ajudam quando se trata de colmatar as desgraças e a miséria existente no mundo. Elas permanecem desde sempre e, num mundo culturalmente rico e civilizado, era já tempo de atenuar as diferenças, também sempre existentes, entre os muito ricos e muito pobres. Enfim, a cultura tal como a concebemos e planeamos, nomeadamente a nível das expressões artísticas e religiosas, serve apenas aos ricos e ao seu entretenimento e não tem contribuído concretamente (e continua sem contribuir) para anular as diferenças e, solidariamente, ajudar quem mais precisa, quem também é humano. É certo que a cultura deve tornar melhor a vida das pessoas, só que os homens ignoram tal princípio e sem qualquer forma de empatia e altruísmo, continuam a pavonear e a apregoar a sua cultura. Uma cultura desproporcionada, sem autêntica expressão na vida humana e com vago significado. Uma cultura que não consciencializa nem sensibiliza os indivíduos para os problemas graves existentes no mundo (que se diz ser humano e humanitário).