22 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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João Pinho

A HISTÓRIA LOCAL: QUE FUTURO?

29 de Agosto 2025

Numa altura em que as máquinas políticas afinam a sua estratégia para as próximas eleições autárquicas, apresentando propostas e programas, verifico que nem todos olham para a nossa História Local duma forma proactiva.

O que é mau indicador, pois o local é hoje global, o “glocal” na nova terminologia, assumindo cada vez mais relevância para as comunidades. Não se pode ganhar o presente e futuro, sem conhecer o passado, de onde vimos, aquilo que passámos e como construímos a sociedade que nos suporta.

Fruto sobretudo das redes sociais, as nossas tradições, usos e costumes de natureza eminentemente local e regional, estão hoje acessíveis e à distância de um clique. Recordo, por exemplo, o impacto do encontro de gaiteiros, que todos os anos anima a freguesia de Almalaguês, e que atrai gente, de várias regiões, nacionais e internacionais. Ou o projeto da Filarmónica Taveirense, que une a história local com a música.

Tenho dado o meu contributo para a causa, fruto sobretudo das monografias e artigos de opinião que tenho escrito, bem como de conteúdos cedidos para recriações históricas, como aconteceu em 2014, com a Feira Antiga de Botão.

Há, contudo, muito para fazer a este nível, muitas fontes para investigar e compulsar, muita oralidade para preservar, testemunhos para recolher, tendo em vista uma melhor compreensão da nossa cultura.

Como seria bom, útil e avisado, que todos os municípios apostassem no conhecimento da sua própria história, que disso fizessem um valor-âncora de atuação cultural, valorizando os seus próprios arquivos, apostando não só em trabalhos escritos, mas também em bases de dados interdisciplinares, multidisciplinares e transdisciplinares, abarcando as várias áreas do saber.

É curioso como Coimbra, berço da universidade, não dispõe de uma obra escrita sobre a sua própria história. Existem centenas, talvez milhares de estudos, mas são ou circunscritos a uma área do saber, ou cobrem um determinado período cronológico, ou se apresentam deficitárias em termos de conteúdos.

Não existe, na realidade, uma obra de síntese, escrita sob os mais modernos preceitos de investigação, que possa ser oferecida e ou vendida a quem nos visita. Nunca a universidade se entendeu a esse nível, talvez por serem imensas as fontes de informação, e existam, em simultâneo, muitas capelinhas que impedem um entendimento geral.

Tenho, para mim, pelo conhecimento que possuo dos nossos arquivos, que Coimbra justifica não só essa obra de síntese, mas também uma coleção, organizada por volumes temáticos, onde se possam encaixar as peças de um imenso puzzle, que se definiu ao longo dos tempos sob a designação de «Coimbra e seu Termo».

Mário Nunes, vereador que foi da Câmara Municipal durante vários anos, criou uma coleção “Coimbra-Património”, que após o fim do seu último mandato, não foi acarinhada nem continuada, por razões que de todo me ultrapassam. Foi, no entanto, um esboço bem conseguido, do caminho que devíamos trilhar, uma vez que aí se publicaram trabalhos académicos, e não só, sobre a nossa história local e regional.

Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo. Urge em tempos tão complexos, onde a cada dia assistimos à destruição silenciosa do nosso património – moinhos, lagares, alminhas, capelas, retábulos, imagens, só para citar alguns exemplos – muitas vezes em nome de um progresso duvidoso, dar passos firmes para a salvaguarda da nossa história, memória e identidade.

Têm a palavra os futuros autarcas deste país a que chamamos Portugal.


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