12 de Junho de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

A Filosofia e o filosofar

12 de Junho 2026

Mais do que um corpo de conhecimentos teóricos ou a busca incessante de um conhecimento teórico, a filosofia apresenta-se como atitude face ao mundo e à vida: não tem unicamente uma dimensão teórica, mas tem também uma dimensão eminentemente prática com uma função normativa enquanto orientação para a vida. “O estudo da filosofia é mais necessário para ordenar os costumes e conduzir-nos nesta vida do que é o uso dos olhos para nos guiar os passos” (R. Descartes em “Princípios da Filosofia”) O filosofar requer o questionamento permanente e a problematização do que parece óbvio e evidente; sendo uma atitude antidogmática e crítica põe em causa tudo aquilo em que acreditamos e aceitamos sem prévia reflexão. É, por isso, uma atitude de reflexão que visa ultrapassar as aparências em busca da verdade, tentando desvendar o que se oculta, na realidade, por detrás do que nos aparece e “parece ser” e se manifesta no imediato. É ainda uma atitude de admiração, espanto e curiosidade perante o real que nos cerca (Aristóteles). O filósofo é como uma criança que sempre se espanta com o mundo e se interroga, sentindo curiosidade por tudo o que a rodeia (J. Gaarder em “O mundo de Sofia”) A filosofia é também uma atitude de inconformismo e insatisfação perante o que nos é dado no imediato e como evidente. De um modo mais geral, o que carateriza a filosofia são as dimensões da concetualização, refletindo profundamente sobre os conceitos essenciais do nosso pensamento, da problematização, como esforço de pensar sobre os problemas e de formular problemas, questionando as crenças que geralmente se aceitam acriticamente de diferentes autoridades e, por último, a dimensão da argumentação racional.

Há também uma filosofia sistemática, que é a desenvolvida pelos filósofos profissionais que dedicam a sua vida à investigação e reflexão filosóficas e cujo nome, vida e obra, surgem numa História da Filosofia e temos depois a filosofia espontânea, que surge na poesia popular, de que é exemplo o poeta António Aleixo, nos provérbios e ditados populares, no teatro, no folclore, enquanto manifestação da cultura de um povo, etc. Esta última faceta da filosofia prova que, por natureza e enquanto seres racionais, todos nós, humanos, podemos ser filósofos ao colocarmos questões e ao refletir profundamente sobre a vida que vivemos e é, sobretudo, nas situações-limite da nossa vida (por exemplo, a morte de um familiar próximo ainda jovem) que nos interrogamos sobre o sentido da nossa existência, a questão última e primordial de todo o filosofar.

Concluindo, a filosofia não é apenas prerrogativa de filósofos profissionais, pois qualquer ser humano pode filosofar, em termos de conteúdo do pensar e do questionamento que faz, expressando livre e publicamente o seu pensamento e desenvolvendo uma filosofia de vida. A nível da forma do pensar, no entanto, esse pensamento pode parecer disperso e, de algum modo, desorganizado, uma vez que o homem, sem preparação especificamente filosófica, não domina completamente e de forma sistemática as regras lógicas que permitem dar mais coerência e sentido ao pensamento, mas, apesar disso, domina naturalmente e de forma elementar os princípios lógicos e possui uma rudimentar capacidade de argumentação que é tão necessária ao labor filosófico.


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