16 de Março de 2026 | Coimbra
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Pedro Falcão

A dimensão formadora da Escola no século XXI

20 de Fevereiro 2026

É o caráter das pessoas que marca o modo como se estabelecem, na sociedade e no interior da escola, as relações humanas. Estas devem ser relações de interdependência e de compromisso face ao “outro”. A Escola, como instituição cultural de teor humanista, tem uma indiscutível importância no desenvolvimento de competências técnicas e de conhecimentos científicos e humanísticos. Deve ter igualmente responsabilidades relativamente à formação cívica e formação do caráter dos seus discentes. As interações humanas que se estabelecem no interior das escolas devem ser compreendidas no contexto das relações da sociedade em geral e do relacionamento no seio das famílias. É importante que a Escola se organize tendo como uma das suas finalidades prioritárias repensar a reestruturação das relações sociais e humanas no seu interior e a mudança de mentalidades. Não são as aprendizagens de conteúdos programáticos, nas várias disciplinas, que contribuem para a formação do caráter, mas tão só para o desenvolvimento intelectual e cultural e de competências técnicas.  Só com uma orientação adequada, em termos de valores éticos e num contexto de relações genuinamente humanas, se pode formar o caráter de cada um, como ser humano, ser racional e ético. Daí a importância de disciplinas como a Formação Cívica ou de Educação para a Cidadania ou mesmo de Filosofia no sentido de formar cidadãos responsáveis e autónomos, mas também conscientes e íntegros de caráter. Os debates regulares sobre temas éticos e deontológicos seriam úteis no meio escolar, permitindo integrar os alunos, de forma eticamente responsável, na sociedade. Tratar o “outro”, o seu semelhante, como igual, um “tu-como-eu” a quem conferimos a dignidade de pessoa e não tratamos com desprezo ou indiferença, é um imperativo ético e deve ser um ideal fundamental que a Escola tem de promover de forma incondicional, principalmente porque o meio escolar reflete o meio social em geral, onde cada vez mais predomina o individualismo e a concorrência, muitas das vezes desleal, resultando numa competitividade feroz. Cada um quer ser melhor do que o outro e ter mais oportunidades de realização pessoal, de sucesso e de poder e, assim, muitos não se coíbem de, sem escrúpulos, “passar por cima” dos outros para satisfazer os seus desejos e interesses pessoais, não cumprindo nem tendo consciência das regras mais elementares, de cidadania e de humanidade. A hipocrisia, o egoísmo, o oportunismo cego e a esperteza, o hedonismo, a violência e o utilitarismo, tão caraterísticos dos nossos dias, também na Escola se manifestam despudoradamente. Estas atitudes devem ser excluídas da convivência social e escolar e é a própria Escola, com a sua vocação formadora, que tem o dever de contribuir para isso, complementando e, em muitos casos corrigindo, a educação informal da família. Sendo a Escola um reflexo da sociedade em que se insere ela deve querer inverter este estigma social e transformar-se em instituição renovadora da mentalidade social e propulsionadora de valores humanos fundamentais e universais, como a solidariedade e o altruísmo, a verdade, a justiça, a tolerância, a honestidade, a integridade moral e a honra. Estes valores parecem desajustados nas sociedades atuais, mas é pela sua reinstituição que a Escola deve afirmar-se, voltada para o futuro em pleno século XXI. Essa deve ser uma das suas tarefas primaciais: incutir nos alunos o reconhecimento de que o “outro” é um valor, de que o “outro” tem uma dignidade própria. A intenção formadora da Escola deve orientar-se no sentido de consciencializar os seus alunos de que o “eu”, perante o “outro” não pode ser indiferente como pode ser face aos objetos materiais e utilitários, que usa e “deita fora” quando já não são úteis. Não se deve instrumentalizar o “outro”, nosso próximo.

Em suma, educar para a formação do caráter no contexto da sociedade atual, em que predomina uma certa transmutação de valores, sempre conjuntamente com a educação familiar: eis um dos desafios que se colocam à Escola em pleno século XXI. O contributo presente da Escola poderá ser muito útil às gerações futuras. É claro que esta tarefa é inútil se partirmos do princípio de que o caráter é determinado geneticamente e não pela educação. É, também, na própria Escola que este problema deve ser debatido.


  • Diretor: Lino Vinhal

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