24 de Janeiro de 2026 | Coimbra
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Sara Madeira

A (des)construção da morte

27 de Outubro 2023

A (des)construção da morte. Os cemitérios como espaços patrimoniais da memória (i)material: o Cemitério da Conchada, em Coimbra

Em O Céu da Memória – Cemitério Romântico e  Culto Cívico dos Mortos em Portugal (1746 – 1911), publicado em 1999, Fernando Catroga entende que nos espaços cemiteriais, as sepulturas, jazigos ou mausoléus transmitem rituais simbólicos de eternidade, vinculados a sentimentos de pertença, divulgando a sobrevivência e o enraizamento das memórias partilhadas. Neste sentido, descrevo e entendo os cemitérios como espaços (i)materiais fundamentais tanto para o reconhecimento da historicidade cultural  de um país como para a valorização de pessoas cujos contributos referentes ao imaginário de uma cidade, vila ou aldeia são irrefutáveis, destacando, igualmente, a evocação e partilha de histórias, percetíveis nos recintos cemiteriais, como uma prática evocativa do significado do passado, presente e futuro.

Foi esta abordagem de construção social que me despertou para a investigação temática cemiterial, tendo como estudo de caso o Cemitério da Conchada, em Coimbra. Conforme destaco num artigo de minha autoria, intitulado La relevancia idiosincrásica de la muerte y los cementerios. Turismo em el cementerio ochocentista de Conchada (Coimbra, Portugal): públicos, motivaciones, interpretaciones y relexiones (2022), o Cemitério da Conchada, estabelecido em 1860, encontra-se em Vias de Classificação pela Direção Geral do Património Cultural (DGPC), havendo, por parte da Câmara Municipal de Coimbra, propostas de eventual Classificação como Conjunto de Interesse Público (CIP), sendo atribuído destaque a monumentos funerários, enquadrados em movimentos artísticos revivalistas, trabalhados por artífices conimbricenses da cantaria e do ferro forjado, no contexto do legado da Escola Livre das Artes do Desenho (ELAD), fundada em Coimbra, repousando, na materialidade da pedra, figuras cujo impacto social, cultural, literário, político ou artístico influenciou a memória da cidade. Neste âmbito, nomes como João Machado, Daniel Rodrigues, António Augusto Gonçalves, Joaquim António de Aguiar, Adelino Veiga, Joaquim Martins de Carvalho, Olímpio Nicolau Rui Fernandes, Eugénio de Castro, José Dória, Amélia Janny, Raimundo Venâncio Rodrigues, Augusto Mendes Simões de Castro, para além de muitos outros, adquirem predominância.

Porém, ao colaborar com entidades públicas e empresas de turismo cultural da cidade, no desenvolvimento de percursos temáticos na Conchada, complementados com visitas orientadas, fui tomando consciência da importância da perceção contemporânea do conceito da morte, indissociável da narrativa cemiterial, tanto na subsequente interação com hipotéticos(as) participantes, durante o processo de divulgação de iniciativas patrimoniais no cemitério, como com o público visitante. Assim sendo, constatei que os(as) cidadãos(ãs) que aderem a visitas orientadas na Conchada, não entendem a morte como um fator dissuasor de participação em iniciativas culturais em contexto cemiterial. Quem visita cemitérios fá-lo para adquirir conhecimento nas suas variadas vertentes de conhecimento e/ou partilhar histórias assim como curiosidades acerca dos(as) sepultados(as). Por outras palavras, não existe uma manifestação psicológica que crie restrições pois celebra-se a vida. Entendo que, nestes casos, possam haver duas possíveis hipóteses de investigação, passíveis de corroboração em estudos futuros:  (1) a presença de uma mentalidade laica em relação ao património cemiterial, isto é, a imagética religiosa não cria obstáculos no reconhecimento da relevância da (i)materialidade do espólio cemiterial; (2) alguns(mas) visitantes frequentam a Conchada com assiduidade, no seguimento de homenagem a familiares e relações de amizade, facto que poderá promover uma abordagem de empatia para com as vivências e as vidas dos(as) sepultados(as) e, consequentemente, o desenvolvimento de uma sensibilidade pela vertente artística, cultural e humana dos cemitérios.

No entanto, existem munícipes que associam a participação em dinâmicas culturais cemiteriais  a uma reflexão incómoda acerca da morte e, com base neste argumento, embora reconheçam o seu valor patrimonial, não aderem à participação em percursos temáticos no Cemitério da Conchada.  Partindo destes pressupostos, Bifulco et al., no artigo The Representation of Death in Modern Society (2018), reconhecem a perceção da mortalidade como uma ameaça ao entendimento e definição do mundo social.  Identicamente, Philip Mellor, citado por Philip Stone na sua tese de doutoramento Death, Dying and Dark and Tourism in Contemporary Society: A Theoretical and Empirical Analysis (2010),  perspetiva, no texto Death in High Modernity: The Contemporary Presence and Absence of Death (1993), a perceção da morte como sequestrada do espaço público para a esfera pessoal, sendo removida do discurso cívico, promovendo a sociedade contemporânea manifestações subjetivas da experiência da morte ao advogar a formação de individualizações identitárias, criando ausência de significado e contribuindo para o isolamento existencial das pessoas. Estas constatações alertam para a necessidade de recorrer a abordagens que permitam consciencializar o público da importância interpretativa dos cemitérios, providenciando estratégias de informação e comunicação eficientes enquanto recursos que proporcionam a preservação do património cultural cemiterial, sendo utilizadas, por parte dos agentes culturais e turísticos, como metodologia para promover a sustentabilidade do património (i)material cemiterial, recorrendo a um discurso esclarecido que desconstrua conceitos estereotipados e fatalistas relativos ao entendimento da morte, por modo a precaver o esquecimento e negligência (i)material dos cemitérios.

No caso especifico do Cemitério da Conchada, sugiro a contribuição de critérios informativos e de  comunicação para a criação de arquivos de dados, cujos conteúdos históricos, artísticos e culturais incluam contributos académicos especializados e de participação comunitária, validando vivências e histórias pessoais partilhadas tanto por descendentes de personalidades reconhecidas na urbe como de cidadãos(ãs) individuais pois entendo que uma abordagem pluralmente representativa contribui para transparecer a realidade social e cultural das sociedades numa coesão democrática e integrada. De igual modo, destaco uma notícia publicada na plataforma digital de lifestyle NIT, publicada a 3 de setembro de 2022, intitulada A história do Cemitério dos Prazeres vai a ser contada em 3D pelo Duque de Palmela, na qual sobressai a importância de um projeto, a ser aplicado no Cemitério dos Prazeres (Lisboa), referente à oferta de uma visita virtual interativa, trabalhada em 3D, protagonizada pelas figuras históricas do 1º Duque de Palmela e a 3ª Duquesa de Palmela (cujo mausoléu privado é o maior em contexto europeu), permitindo ao(à) utilizador(a) uma experiência imersiva e contribuindo para o conhecimento da história do espaço cemiterial, reconhecendo a extensão desta iniciativa às particularidades artísticas, culturais e históricas presentes no Cemitério da Conchada. Recorrendo, uma vez mais, ao exemplo prático do Cemitério dos Prazeres,  evidencio a notícia 6 factos que deve conhecer sobre o Cemitério dos Prazeres, publicada, no jornal online Observador, a 10 de janeiro de 2017, recomendando a reinvenção da Capela da Conchada, ficando uma parte dedicada à vertente religiosa enquanto que outras dependências teriam funções de núcleo museológico cujos conteúdos incluiriam um espólio de objetos rituais e peças provenientes de jazigos abandonados.  Da mesma forma, a inclusão de visitas teatralizadas, conceito promovido pelo Cemitério da Lapa (Porto), conforme sublinhado pela Rádio Renascença em artigo online denominado “Teatro” no cemitério. Há novidades no ciclo anual de visitas ao cemitério da Lapa, em 31 de maio de 2018, poderiam ser incluídas na Conchada, refletindo as vidas de individualidades, tidas como fulcrais para a construção da história local de Coimbra e de Portugal. Uma vez efetivados os cenários virtuais de conhecimento, musealização e vertente artística destes empreendimentos, introduzia-se uma linguagem audiovisual, interativa e comunicacional dinâmica que culminasse em visualizadores compartilhados, permitindo ao público aceder a uma (re)interpretação do património cultural cemiterial num processo estratégico diferencial, direcionado para uma transformação no arquétipo tradicional de aprendizagem e participação cidadã.

Estas são apenas algumas sugestões de muitas passíveis de concretização, proporcionando, por sua vez, um rebranding cemiterial imagético cultural associado a uma maior humanização e acessibilidade do espaço cemiterial. O discurso tecnológico e comunicacional contribui para credibilizar métodos necessários e eficazes na preservação e divulgação do património cemiterial, viabilizando novos apelos e soluções para as resolução das suas vulnerabilidades no contexto da (re)interpretação contemporânea do conceito da morte, subvertendo a dialética da finitude física para uma conjuntura de heterogeneidade patrimonial. A salvaguarda da memória proporcionada pelos bens (i)materiais cemiteriais é uma manifestação da subjetividade e identidade social do património cultural, merecendo dedicação e relevância cívica, comunitária e académica.

 

 

 


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